Há espaços que nascem da necessidade de falar. Outros, da urgência de ser ouvida. E há aqueles que florescem quando mulheres, com suas diferentes histórias, experiências e caminhos, se encontram e descobrem na força coletiva uma maneira de seguir, resistir e transformar. Foi desse encontro de histórias, lutas e afetos que nasceu, no último sábado (22), o Coletivo Madalenas, lançado pelo SISMUC como um espaço para ampliar o debate sobre os direitos das mulheres e o enfrentamento às violências, mas também para acolher, organizar e fortalecer o protagonismo das trabalhadoras.
O lançamento aconteceu em um momento especialmente simbólico: durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra as mulheres, e no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Em meio a esse marco, reunir mulheres para falar, ouvir, compartilhar experiências e construir caminhos coletivos também foi uma forma de reafirmar que o enfrentamento à violência passa pela informação, pela rede de apoio e, sobretudo, pela organização das próprias mulheres.
É nesse sentido que o nome escolhido para o coletivo ganha ainda mais significado. Madalenas é uma homenagem a Maria Madalena de Amaral, primeira mulher a presidir o Sindicato, cuja trajetória se entrelaça à organização e à luta das trabalhadoras. Sua história ajuda a ligar passado e presente: a memória de quem abriu caminhos encontra as mulheres que hoje seguem ocupando espaços e construindo novas formas de luta.
Homenageada durante o lançamento, Madalena resumiu, em poucas palavras, o sentido de uma vida dedicada à construção coletiva e ao desejo de uma sociedade mais justa: “Eu não quero placa e nem nada do tipo, eu quero um mundo melhor, mais justo, foi por isso que lutei e sigo lutando.”
A frase também traduz o espírito do Coletivo Madalenas: uma homenagem que olha para trás sem perder de vista o futuro. Ao trazer o nome de Madalena para uma iniciativa que nasce no presente, o SISMUC reconhece quem abriu caminhos e reafirma que essa história continua sendo escrita pelas mulheres que hoje ocupam esses espaços e pelas que ainda chegarão.
Um espaço que nasce da organização
Para a coordenadora geral do SISMUC, Juliana Mildemberg, o lançamento do Coletivo Madalenas faz parte de um movimento que a entidade vem realizando nos últimos meses, com a criação de espaços voltados à organização, ao diálogo e à participação dos trabalhadores e trabalhadoras.
“Gostaria de dizer para vocês que, para nós, enquanto direção do SISMUC, é uma honra lançar este Coletivo hoje. Nos últimos meses, nós fizemos o lançamento de outros dois coletivos muito importantes para a entidade: o coletivo LGBTQIA+ e o Coletivo Antirracista Iyagunã. E, agora, a gente traz o lançamento do Coletivo Madalenas. Para nós, isso é muito importante porque reafirma o nosso compromisso com as políticas públicas e com os servidores. E, nesse momento, a gente traz um debate também extremamente importante: o enfrentamento à violência contra as mulheres e a tudo aquilo que tem trazido obstáculos para as mulheres, inclusive para as mulheres do serviço público, que não é diferente”, destacou.
A proposta, porém, não ficou restrita à direção do Sindicato. Durante o lançamento, muitas mulheres participaram das discussões, compartilharam suas vivências e ajudaram a definir os caminhos do novo espaço.
Niuceia de Fátima Oliveira, coordenadora da Secretaria de Mulheres do Sindicato, destacou a importância desse processo e de reconhecer quem esteve envolvida na criação do coletivo. “Esse coletivo é feito por muitas mulheres e, por isso, este momento também é de reconhecimento a cada uma que ajudou a pensá-lo e torná-lo possível. São histórias, experiências e trajetórias diferentes que se encontram na vontade de caminhar juntas. É importante que todas tenham voz, ocupem esse lugar e sejam protagonistas, porque o Coletivo Madalenas só faz sentido quando é construído por muitas mãos e muitas vozes.”
Essa diversidade esteve presente no lançamento. A roda reuniu representantes da Rede Mulheres Negras, da Marcha Mundial das Mulheres, da Frente Feminista, de conselhos municipais, da Defensoria Pública do Estado do Paraná e de outros segmentos e coletivos. Mulheres negras, indígenas, quilombolas, ciganas, sem terra e mulheres LGBT também estiveram representadas nas falas das participantes.
Ao longo do encontro, trabalhadoras compartilharam relatos sobre suas trajetórias, suas lutas e os diferentes desafios enfrentados dentro e fora do trabalho. Houve histórias atravessadas por violências, mas também por resistência, superação e pela conquista de espaços que, historicamente, foram negados às mulheres. Entre tantos relatos, uma compreensão ganhou força: a violência que uma mulher sofreu não define quem ela é.
Para Niuceia, foi justamente a liberdade das participantes para falar, ouvir e construir os caminhos da conversa que tornou o encontro tão significativo. “Foram 42 mulheres que trouxeram suas trajetórias de vida e nos presentearam com uma conversa potente, respeitosa e livre. Ouvi, ao final, o quanto esse encontro foi orgânico, porque o próprio grupo foi encontrando os caminhos e construindo algo muito profundo, interessante e ético. Só temos que agradecer pela entrega, pela confiança, pela música e por toda essa energia maravilhosa que nos contagiou e que nos fortalece para seguirmos juntas nesse caminhar.”
Direitos também se constroem com participação
A partir desse encontro, o debate também chegou à importância de ocupar os espaços onde os direitos das mulheres são discutidos e definidos. Essa foi uma das reflexões trazidas por Camila Mafioletti Daltoé, integrante do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres e assessora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (NUDEM), da Defensoria Pública do Estado do Paraná.
Ao ouvir os relatos das participantes, Camila destacou a necessidade de levar as reivindicações das mulheres para diferentes áreas. “É importante a gente também trazer essas disputas dentro do campo do direito, dentro do campo da saúde, dentro do campo do serviço público.”
Para ela, essa participação é fruto de uma construção histórica e precisa ser ampliada para que as demandas das mulheres estejam presentes também nas instituições e nas decisões que impactam suas vidas. Nesse sentido, Camila apresentou a atuação da Defensoria Pública do Estado do Paraná e do NUDEM como espaços de acolhimento e defesa das trabalhadoras. O núcleo atua na promoção dos direitos das mulheres e no atendimento a mulheres indígenas, mulheres trans e mulheres em situação de violência, além de acompanhar casos de violência política.
Guia prático reúne informação e caminhos de proteção
Durante o lançamento, as participantes também receberam o “Guia Prático para Mulheres de Lutas: juntas é possível”. O material reúne conteúdos que ajudam a orientar a atuação do Coletivo Madalenas e foi construído a partir das demandas identificadas pelas próprias trabalhadoras.
Uma pesquisa realizada com as servidoras durante o 14º Congresso do SISMUC, realizado em maio, apontou o enfrentamento à violência contra as mulheres como o principal eixo a ser discutido e enfrentado pelo Coletivo. O tema, por isso, ocupa lugar central no guia, que também apresenta a história de Madalena Amaral, aborda a Política Nacional do Cuidado e reúne informações sobre os tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha e a rede de proteção.
“É importante salientar a entrega do nosso guia prático durante o Coletivo. Ele traz alguns textos importantes sobre a criação do nome deste Coletivo Madalenas, em homenagem à nossa primeira presidenta, e também sobre a Política Nacional do Cuidado e a pesquisa que fizemos no 14º Congresso, que apontou a violência contra a mulher como o tema mais pedido. Nas últimas páginas, temos a nossa rede de proteção, com informações sobre como acionar essa rede diante de qualquer tipo de violência”, explicou Niuceia.
Ela também destacou a importância de conhecer as mudanças recentes na legislação. Na semana do lançamento do Coletivo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ampliar a aplicação das medidas protetivas da Lei Maria da Penha para casos de violência contra a mulher baseada em gênero, mesmo quando não há relação doméstica, familiar ou afetiva entre vítima e agressor. “Essa é uma garantia importantíssima de direitos, que a gente vai estar conversando no nosso grupo do coletivo nos próximos enconros. Queremos que esse material chegue a todas as mulheres, servidoras públicas ou não, que possam precisar dessa contribuição”, afirmou Niuceia.
O guia está disponível em formato físico e digital, e as mulheres também podem participar do grupo do Coletivo Madalenas para acompanhar as próximas ações, debates e atividades.
::: Entre aqui no grupo do Coletivo Madalenas.
::: Acesse aqui o “Guia Prático para Mulheres de Lutas: juntas é possível”
Próximos passos
O lançamento foi o primeiro passo de uma caminhada que seguirá sendo construída dentro do SISMUC. O Coletivo Madalenas terá novas ações, encontros e espaços de diálogo ao longo dos próximos meses, ampliando a participação e fortalecendo a organização das trabalhadoras.
Todas as mulheres estão convidadas a se aproximar, participar e fazer parte dessa construção. O coletivo nasce de muitas histórias, mas está aberto às que ainda virão, às mulheres que quiserem chegar, compartilhar, ouvir, construir e somar sua força a essa caminhada.



























