A Prefeitura de Curitiba comemora a nota 6,9 no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) como símbolo da qualidade da educação pública municipal. O resultado ganhou espaço em outdoors, propagandas de TV, rádio e internet e passou a ser apresentado pela administração como uma das principais marcas da rede. Mas, se a educação municipal fosse um bolo, o IDEB seria apenas uma fatia, e ainda das menores. O que fica de fora são os ingredientes que sustentam o cotidiano das unidades: profissionais, condições de trabalho, saúde dos servidores, estrutura e os CMEIs, que nem entram nessa conta.
A nota 6,9 colocou Curitiba no primeiro lugar entre as capitais brasileiras nos anos iniciais do ensino fundamental, do 1º ao 5º ano. O resultado de 2025 considera o desempenho dos estudantes nas avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), em língua portuguesa e matemática, combinado aos dados de fluxo escolar, que consideram as taxas de aprovação, reprovação e evasão. A própria divulgação da Prefeitura destaca o desempenho da rede e informa que 22 escolas municipais estão entre as 100 melhores notas das capitais.
O resultado é relevante, mas seu alcance é específico. O IDEB foi criado para acompanhar a aprendizagem e o fluxo escolar e, portanto, não mede a composição das equipes, a quantidade de profissionais disponível nas unidades, os afastamentos por problemas de saúde ou as condições em que o trabalho educacional é realizado. Também não contempla a educação infantil: os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), que atendem crianças antes da entrada no ensino fundamental, ficam fora do cálculo dos anos iniciais.
É justamente essa diferença entre o que o indicador mostra e a dimensão da rede que o SISMUC quer colocar em evidência. O Sindicato não questiona o desempenho alcançado pelos estudantes nem o trabalho realizado pelos profissionais da educação. A crítica é à forma como uma nota que mede uma etapa específica e determinados componentes da aprendizagem vem sendo utilizada nas propagandas da Prefeitura como representação da qualidade de toda a educação municipal. “O IDEB é um indicador importante, mas não pode ser transformado em sinônimo de excelência de toda a rede. Quando a Prefeitura apresenta o 6,9 como retrato da educação de Curitiba, deixa de fora justamente as condições em que esse resultado é produzido”, afirma o SISMUC.
Quando faltam profissionais, a sobrecarga fica para quem está na escola
Nas escolas municipais de ensino fundamental, os auxiliares de serviços escolares, conhecidos como inspetores, estão entre os trabalhadores representados pelo SISMUC. Embora não apareçam no resultado do IDEB, são eles que também ajudam a garantir o funcionamento da rotina escolar, especialmente nos momentos em que os estudantes estão fora da sala de aula.
Curitiba possui 1.298 vagas legais para auxiliares de serviços escolares, mas apenas 1.002 estão preenchidas. São 296 vagas sem ocupação, o equivalente a 22,8% do quadro previsto.
Na prática, o déficit significa que um número reduzido de profissionais precisa acompanhar uma grande quantidade de crianças. Durante os intervalos, um inspetor pode ser responsável pelo acompanhamento de mais de 150 estudantes. Se uma criança se machuca, passa mal ou precisa de atendimento individual – situação que pode demandar atenção ainda maior quando envolve uma criança com deficiência – o trabalhador precisa deixar o acompanhamento do grupo para prestar assistência.
Em uma equipe reduzida, nem sempre há outro profissional disponível para assumir esse acompanhamento. “Se uma se machuca, as outras ficam sem supervisão. A gente faz o que pode, mas não é seguro nem para elas nem para a gente”, relata uma inspetora que atua há 12 anos na função e que já chegou a acompanhar mais de 200 crianças sozinha no pátio.
Para o SISMUC, a situação mostra que o déficit de profissionais tem consequências que ultrapassam o quadro administrativo. “Quando uma equipe já está reduzida, cada ocorrência acaba aumentando a pressão sobre quem permanece. O trabalhador precisa atender a criança que necessita de ajuda, mas as demais continuam precisando de acompanhamento. É uma situação que precisa ser enfrentada com a recomposição das equipes”, afirma o SISMUC.
O adoecimento de quem mantém a rede funcionando
A falta de profissionais também precisa ser observada em conjunto com outro aspecto da rotina da Secretaria Municipal da Educação: os afastamentos por motivos de saúde.
Informações obtidas pelo SISMUC junto à Prefeitura Municipal por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram 72.731 concessões de Licença para Tratamento de Saúde (LTS) entre 2022 e 2025.
Foram 16.821 registros em 2022, 17.432 em 2023, 19.245 em 2024 e 19.233 em 2025. Na comparação entre 2022 e 2025, houve aumento de 14,3%.
Somados os dados disponíveis de 2026, são 81.117 concessões de LTS registradas pela SME entre 2022 e 2026. O número deste ano não pode ser comparado diretamente com os anteriores porque corresponde apenas ao período registrado até o momento.
As concessões não representam necessariamente 81.117 trabalhadores diferentes, já que um mesmo servidor pode ter recebido mais de uma licença. Ainda assim, o volume de registros dimensiona os afastamentos por saúde dentro da Secretaria Municipal da Educação.
Para o SISMUC, o dado precisa ser analisado junto à composição das equipes. Em uma unidade que já trabalha com vagas não preenchidas, a ausência de um servidor pode aumentar a pressão sobre os trabalhadores que permanecem. “Não estamos falando apenas de números de afastamentos. Precisamos olhar para as condições em que esses profissionais estão trabalhando e para o impacto que a ausência de um trabalhador produz em equipes que já estão reduzidas”.







