O SISMUC esteve mobilizado na manhã desta quarta-feira (30/09), na Câmara Municipal de Curitiba, para acompanhar a Audiência Pública de Prestação de Contas e Finanças do segundo quadrimestre de 2026, referente ao período de maio a agosto. Os dados foram apresentados pelo secretário municipal de Planejamento, Finanças e Orçamento, Vitor Puppi.
A prestação de contas mostrou um município que já arrecadou cerca de R$ 10 bilhões no ano, ampliou os investimentos e mantém as despesas com pessoal abaixo do limite estabelecido pela legislação fiscal. Ao mesmo tempo, a audiência trouxe para o debate questões que afetam diretamente os serviços públicos, como o número de servidores, a realização de concursos, a aplicação dos recursos em saúde e educação e a contribuição previdenciária de 14%.
Para o SISMUC, acompanhar esses números é também cobrar que a capacidade financeira do município se converta em valorização dos mais de 30 mil trabalhadores e trabalhadoras que mantêm os serviços públicos em funcionamento.
“O SISMUC esteve mobilizado para acompanhar os números apresentados pela Prefeitura e cobrar que o orçamento de Curitiba, que bate recordes ano após ano, também se traduza em valorização dos servidores. A cidade só funciona porque há trabalhadores e trabalhadoras garantindo diariamente a saúde, a educação, a assistência social, a segurança, a limpeza e todos os demais serviços públicos”, destaca o sindicato.
Para além da mobilzação na Câmara, servidoras e servidores organizaram-se em seus locais de trabalho para reivindicar a valorização merecida de quem faz a cidade acontecer. Confira algumas fotos recebidas pelo SISMUC:
Curitiba já arrecadou R$ 10 bilhões
Segundo a apresentação de Vitor Puppi, Curitiba havia arrecadado aproximadamente R$ 10 bilhões até o segundo quadrimestre de 2026, o equivalente a 68,8% da previsão orçamentária. Entre as receitas correntes, a execução chegava a 73%.
A receita corrente líquida alcançou R$ 13,3 bilhões, com crescimento de 2,6%. As receitas correntes cresceram 1,8% em relação ao quadrimestre anterior, enquanto as receitas de capital recuaram 5,4%.
A direção do SISMUC salienta que essa arrecadação recorde também é impulsionada pela própria contribuição dos servidores. “Muitas vezes, a gestão municipal tem um olhar sobre o servidor público de que representamos apenas despesas aos cofres públicos. Muito pelo contrário, nós movimentos a economia da cidade, nosso imposto de renda também volta para o município, nós também consumimos aqui.”
Despesas com pessoal estão abaixo do limite legal
Nos últimos 12 meses, a Prefeitura contabilizou R$ 5,26 bilhões em despesas com pessoal, o equivalente a 39,93% da receita corrente líquida. O percentual está abaixo do limite legal de 54%.
No comparativo dos empenhos, as despesas com pessoal passaram de R$ 4,12 bilhões em 2025 para R$ 4,14 bilhões em 2026. As despesas correntes chegaram a aproximadamente R$ 7,94 bilhões, enquanto as despesas totais acumuladas alcançaram R$ 9,6 bilhões, crescimento de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os números colocam o quadro de servidores no centro da discussão orçamentária. A distância entre o percentual atualmente comprometido com pessoal e o limite legal não significa, por si só, que todo o espaço fiscal possa ser utilizado para novas despesas, mas demonstra que a discussão sobre valorização, recomposição das carreiras e ampliação do quadro precisa considerar a capacidade financeira efetiva do município.
Mais investimentos e a cobrança por mais servidores
Os investimentos públicos também cresceram. Os empenhos passaram de R$ 310 milhões para R$ 784 milhões no período analisado.
A Prefeitura informou ainda que o FUNREC possui R$ 335 milhões, dos quais aproximadamente R$ 100 milhões foram incorporados em 2026 a partir do resultado de 2025. Segundo Puppi, o fundo funciona como uma reserva para situações de calamidade e crises fiscais.
Outro dado apresentado foi a economia de R$ 56 milhões obtida entre 2025 e 2026 com a revisão de contratos.
Enquanto a Prefeitura apresenta crescimento dos investimentos e medidas de redução de despesas, a composição do quadro de servidores foi questionada durante a audiência. A vereadora Vanda de Assis (PT) apontou que as 348 vagas previstas no concurso público anunciado pelo município são insuficientes diante da demanda dos serviços.
Na assistência social, foram destacadas apenas três vagas para assistentes sociais. Também foi questionada a ausência de vagas para sociólogos, apesar da existência de 26 cargos previstos legalmente.
Puppi afirmou que o concurso também contempla cadastro de reserva e que os aprovados poderão ser chamados conforme a necessidade das secretarias. O secretário também mencionou a possibilidade de contratações pontuais por PSS e afirmou que o município não consegue recompor seus quadros na proporção de uma contratação para cada servidor que deixa o serviço.
Para o SISMUC, a ampliação e o dimensionamento adequado das equipes são fundamentais para garantir condições de trabalho e atendimento à população. “Serviço público de qualidade depende de servidores, com unidades de atendimento com quadro completo. Não adianta dizer que Curitiba é a melhor capital e não fazer a recomposição total das equipes”.
Saúde, educação e vale-creche entram no debate
Durante a audiência foram apresentados os índices de aplicação em áreas essenciais. Na saúde, o município informou aplicação de aproximadamente 17% da receita. Na educação, o índice estava em 20,7%, com previsão de alcançar os 25% exigidos até o fim do exercício.
Na discussão sobre educação, a vereadora Camila Gonda (PSD) questionou a execução dos recursos destinados ao vale-creche.
Segundo os dados apresentados pela gestão municipal, em 2025 foram chamadas 5.397 famílias, mas apenas 907 crianças tiveram matrícula efetivada pelo programa. “Quais são os custos dessa operação e a parcela dos recursos que estaria sendo efetivamente destinada à ampliação da rede pública?”.
Puppi afirmou que os recursos para o vale-creche estão assegurados, mas informou que não tinha naquele momento os dados detalhados sobre a execução do programa e que solicitaria as informações à área responsável.
Para o SISMUC, a falta de apresentação dos dados por parte da SMF reforça a importância de acompanhar não apenas o percentual global aplicado em educação, mas também como os recursos são executados e quais resultados produzem na ampliação do atendimento.
Contribuição de 14% continua sem definição
Outro ponto de impacto direto sobre os servidores aposentados foi a contribuição previdenciária de 14%. Questionado sobre a cobrança, Puppi afirmou que uma eventual mudança depende do cálculo de equilíbrio do IPMC. Segundo o secretário, a retirada da contribuição teria impacto superior a R$ 100 milhões e exigiria a definição de outra fonte de financiamento.
“A contribuição de 14% existe porque, senão, nós temos que achar outra forma de angariar recursos”, afirmou Puppi. O secretário acrescentou que “a Prefeitura aguarda o desfecho da discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) antes de tomar uma decisão.”
A afirmação de Vitor Puppu se mostra constraditória com a promessa de campanha feita pelo prefeito Eduardo Pimentel, de que revogaria o desconto. Durante as negociações entre a Administração Municipal e o SISMUC neste ano, após a greve da categoria, foi assegurado que a promessa será cumprida, independentemente da decisão do STF.
Leia mais em: Fim do desconto dos 14%: em reunião com o IPMC, SISMUC cobra agilidade na efetivação do pleito
Orçamento de 2027 será o maior da história
Os números apresentados na audiência ganham outra dimensão diante da previsão orçamentária para 2027.
A Prefeitura de Curitiba prevê R$ 16,58 bilhões em receitas e despesas brutas para o próximo ano, conforme a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA). O valor é 7,5% superior aos R$ 15,42 bilhões previstos na LOA de 2026 e representa o maior orçamento da história do município.
A proposta prevê ainda R$ 1,81 bilhão em investimentos. Entre as ações previstas estão obras de pavimentação, habitação, calçadas e ciclovias, escolas, unidades de saúde, novos CMEIs, iluminação pública, transporte e projetos de infraestrutura.
As despesas com pessoal e encargos estão estimadas em R$ 7,21 bilhões. Na distribuição do orçamento por áreas, a saúde concentra 21,79%, a educação 19,87%, a Previdência Social 15,37% e o urbanismo 13,65%.
A previsão é que as despesas de pessoal representem 42,7% da receita corrente líquida em 2027, ainda abaixo do limite legal de 54%.
O que o orçamento recorde representa para os servidores?
A sequência dos números apresentados pela própria Prefeitura estabelece uma dimensão concreta para a discussão: Curitiba arrecada bilhões, mantém as despesas com pessoal abaixo do limite fiscal, amplia investimentos e projeta para 2027 um orçamento ainda maior.
O debate, para o SISMUC, é sobre como essa capacidade será utilizada. As reivindicações dos servidores incluem valorização das carreiras, auxilio-alimentação universal, crescimento vertical universal, recomposição salarial, ampliação dos concursos públicos, melhores condições de trabalho e medidas que garantam a qualidade dos serviços prestados à população.
O orçamento recorde para 2027 também ocorre em um momento em que a categoria cobra o cumprimento de compromissos assumidos pela administração municipal.
“O orçamento de Curitiba bate recordes ano após ano. Isso aumenta a responsabilidade da Prefeitura de cumprir aquilo que foi apresentado aos trabalhadores e à população durante a campanha. O SISMUC vai continuar cobrando que o crescimento da arrecadação e a capacidade de investimento também signifiquem valorização dos servidores, concursos públicos em número suficiente, condições dignas de trabalho e atendimento das reivindicações da categoria”, afirma o sindicato.
A prestação de contas do segundo quadrimestre e a proposta orçamentária para 2027 mostram que o debate sobre o futuro de Curitiba não passa apenas pelo tamanho do orçamento, mas pelas escolhas feitas a partir dele. Para os servidores municipais, acompanhar esses números significa também fiscalizar se o crescimento das receitas será convertido em carreira, salário, contratação, condições de trabalho e serviços públicos de qualidade.












