Análise de conjuntura do 14º Congresso do SISMUC conecta os desafios globais à realidade dos servidores municipais

As disputas políticas e econômicas que acontecem no mundo, os desafios da democracia brasileira, o avanço das privatizações no Paraná e os impactos dessas políticas na vida dos servidores públicos municipais foram debatidos durante a mesa de análise de conjuntura que marcou a abertura oficial do 14º Congresso do SISMUC, realizado nesta quinta-feira (29).

A atividade reuniu o servidor aposentado e ex-presidente do SISMUC, Dr. Rosinha, que apresentou o contexto internacional; o deputado federal Tadeu Veneri (PT), que abordou a conjuntura nacional; a vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e dirigente da APP Sindicato, Marlei Fernandes, que apresentou a análise estadual; e a coordenadora geral do SISMMAC, Marcela Alves Bonfim, que trouxe a reflexão para a realidade municipal.

Entre os dados apresentados durante o debate, um chamou atenção: somente no Paraná, cerca de 45 mil servidores são afastados do trabalho todos os anos, sendo aproximadamente 10 mil por questões relacionadas à saúde mental. Para os participantes da mesa, esse cenário é resultado de um conjunto de políticas que conecta decisões tomadas no cenário internacional às realidades vividas diariamente pelos trabalhadores brasileiros.

Ao abrir os debates, Dr. Rosinha destacou que os problemas enfrentados pelos trabalhadores não podem ser analisados apenas olhando para o Brasil. Segundo ele, as decisões tomadas pelas grandes potências mundiais têm impacto direto na vida das pessoas. “A eleição da esquerda não é importante apenas para o Brasil, mas para o mundo. Precisamos entender que a política internacional afeta diretamente aquilo que acontece dentra do nosso municipio”, afirmou.

Para Rosinha, o crescimento da extrema direita em diferentes países está ligado ao aumento das desigualdades sociais, à concentração de riqueza nas mãos de poucos grupos econômicos e à precarização das relações de trabalho. Ele explicou que muitas pessoas passaram a viver com menos direitos, empregos mais instáveis e dificuldades para acessar serviços públicos, criando um ambiente favorável para o avanço de discursos autoritários.

O ex-presidente também chamou atenção para os efeitos da crise climática sobre a população mais vulnerável. “Hoje vivemos uma guerra climática. E quem mais sofre são os pobres e, entre eles, principalmente as mulheres.”

Segundo a análise apresentada, os impactos das mudanças climáticas, das guerras e das disputas econômicas internacionais atingem de forma mais dura justamente quem depende das políticas públicas para sobreviver.

Ao trazer o debate para a realidade brasileira, o deputado federal Tadeu Veneri (PT) afirmou que muitos dos desafios enfrentados pelo país têm origem em problemas históricos que nunca foram resolvidos. “Nós não fizemos uma série de reformas necessárias, como a reforma agrária. Em muitos aspectos, ainda estamos olhando para os anos 1950.”

Veneri lembrou que, após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, o país passou por mudanças que reduziram investimentos públicos e ampliaram o poder do mercado financeiro sobre as decisões econômicas. Para ele, os reflexos dessas medidas ainda são sentidos pela população.

O parlamentar avaliou que o Brasil vive um momento de forte polarização política e que as eleições de 2026 terão papel decisivo na definição dos rumos do país. “Hoje temos uma sociedade calcificada em opiniões. A disputa não está nos 44% que já estão de um lado ou nos 45% que estão do outro. Ela está justamente naquele pequeno percentual que ainda pode ser convencido.”

Apesar das dificuldades, Veneri destacou conquistas recentes do governo federal, como a retirada do Brasil do Mapa da Fome e a recuperação de políticas sociais. “Nós tiramos o Brasil do Mapa da Fome, acabamos com o desconto de imposto de renda. Estas são grandes vitórias.”

O deputado também alertou para os riscos que ainda cercam a democracia brasileira. “O golpe que esteve às nossas portas ainda não terminou. Ele continua sendo construído diariamente.”

Ao analisar a realidade do Paraná, Marlei Fernandes afirmou que as políticas debatidas nos cenários internacional e nacional se materializam no estado por meio das privatizações, terceirizações e do enfraquecimento dos serviços públicos. “Nós tivemos Beto Richa e agora Ratinho Junior alinhados ao bolsonarismo na retirada de direitos, especialmente dos servidores públicos.”

Segundo ela, a venda de patrimônios públicos, como a Copel, o crescimento dos contratos terceirizados e a transferência de serviços para a iniciativa privada fazem parte de um projeto que beneficia grupos empresariais em detrimento da população. “Quando se privatiza, se precariza o serviço público e a vida da população mais vulnerável.”

Marlei também apresentou dados que revelam o impacto dessas políticas sobre os trabalhadores do serviço público estadual. “Hoje são cerca de 45 mil afastamentos de servidores por ano. Destes, aproximadamente 10 mil estão relacionados à saúde mental. São 41 afastamentos por dia.”

Para a dirigente sindical, esses números não surgem por acaso. Ela relacionou o aumento do adoecimento às metas excessivas, ao assédio institucional, à pressão constante e à falta de valorização dos servidores. “O adoecimento não é um acaso. É consequência de um modelo que sucateia o serviço público e trata os trabalhadores como números.”

Encerrando a mesa, Marcela Alves Bonfim trouxe a discussão para Curitiba e destacou que os desafios enfrentados pelos servidores municipais fazem parte de um mesmo projeto político presente em diferentes esferas de governo. “Curitiba possui o sexto maior orçamento entre as capitais brasileiras, com cerca de R$ 15 bilhões por ano. Mesmo assim, historicamente vemos a continuidade de um mesmo projeto político na cidade.”

A dirigente lembrou que as decisões tomadas em Brasília, no Paraná e em Curitiba têm reflexos diretos nas condições de trabalho dos servidores, na qualidade dos serviços públicos oferecidos à população e nos investimentos realizados pelo município.

Marcela também chamou atenção para a importância das eleições legislativas, muitas vezes deixadas em segundo plano pelos eleitores. “A gente acaba pensando muito na Presidência da República e no Governo do Estado, mas não pensa nos deputados e senadores. E tem sido justamente nesses espaços que acumulamos derrotas importantes.”

Para a dirigente sindical, compreender como os cenários internacional, nacional, estadual e municipal estão conectados é fundamental para fortalecer a organização da classe trabalhadora. “É importante entendermos como as questões políticas estão interligadas. Tudo pode ser mudado, mas isso depende da nossa mobilização e da nossa participação.”

Ao final da atividade, as diferentes análises convergiram para uma mesma conclusão: diante do avanço das privatizações, dos ataques aos direitos sociais e das tentativas de enfraquecimento dos serviços públicos, a organização coletiva dos trabalhadores continua sendo uma das principais ferramentas para defender a democracia, valorizar o serviço público e construir melhores condições de vida para a população.