Um novo espaço de luta: SISMUC lança Coletivo Antirracista Iyagunã

Iniciativa amplia a atuação do Sindicato na luta pela equidade racial e homenageia a trajetória de Dalzira Maria Aparecida, a Iyagunã, uma das vozes mais expressivas na representatividade religiosa e sociocultural da população negra do Paraná

O SISMUC lançou, na noite da última sexta-feira (24), o Coletivo Antirracista Iyagunã, nova frente de atuação do Sindicato em defesa da equidade racial. O anúncio aconteceu durante um evento com roda de conversa sobre educação antirracista, que integrou a programação do Julho das Pretas e prestou uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho.

O lançamento lotou a sede do Sindicato, reunindo mais de 50 pessoas, entre autoridades e referências do movimento negro. 

Lançamento do Iyagunã – Coletivo Antirracista do SISMUC

A coordenadora-geral do SISMUC, Juliana Mildemberg, abriu o evento agradecendo a presença de todos e, em seguida, passou a palavra para Dermeval da Silva, coordenador da pasta de Igualdade Racial e Combate ao Racismo do Sindicato, e idealizador do Coletivo Antirracista Iyagunã.

Ao anunciar a nova frente, declarou: “Do ventre da mulher preta nasceu a resistência. Das mãos da mulher preta nasceu o acolhimento. Da voz da mulher preta nasceu a transformação. E do comprometimento do SISMUC nasceu o Coletivo Iyagunã.”

Dermeval ainda explicou que a escolha do nome é uma homenagem a Dalzira Maria Aparecida, a Iyagunã, Iyalorixá do Candomblé, pesquisadora e uma das principais referências na luta antirracista e na defesa das tradições e religiosidades africanas no Paraná. “Escolhemos homenagear a Iyagunã ainda em vida porque precisamos reconhecer e celebrar nossas referências enquanto elas ainda estão aqui. O coletivo nasce para fortalecer a organização e ampliar os espaços de participação de servidoras e servidores negros, mas também para carregar o exemplo de Iyagunã, que tem consigo a resistência e a educação como caminho”, afirmou.

Na sequência, a jornalista do SISMUC, Ana Carolina Pacífico, leu um trecho do perfil de Iyagunã presente no livro “Mulheres com N Maiúsculo”, organizado pelas jornalistas Cláudia Kanoni e Aline Reis. O momento seguiu com a entrega da placa em homenagem à Iyalorixá e a apresentação do Bloco Afro Pretinhosidade, que dançou a música de carnaval de 2023 composta por Léo Fé especialmente para celebrá-la.

Quem é Iyagunã Dalzira

Nascida em 17 de julho de 1941, em Guaxupé, Minas Gerais, Dalzira Maria Aparecida chegou a Curitiba em 1970, durante a ditadura militar, após a família perder suas terras no interior do Paraná. Fixou-se no Bairro Alto, onde construiu redes de apoio que marcaram sua atuação no movimento negro, na religião e na educação.

Iyagunã iniciou os estudos regulares aos 47 anos, no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Aos 63, entrou na faculdade, no curso de Relações Internacionais, e aos 72 defendeu seu mestrado sobre saberes do Candomblé na contemporaneidade. Em 2022, aos 81 anos, defendeu o doutorado em educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com a tese “Professoras negras: gênero, raça, religiões de matriz africana e neopentecostais na educação pública”.

Iniciada no Candomblé em 1986, tornou-se Iyalorixá em 1993 e fundou, no ano seguinte, o Ilê Asé Ojubo Ògún – Associação Cultural Omo Ayê, na região metropolitana de Curitiba, terreiro que funciona também como espaço de formação, valorização da cultura negra e enfrentamento ao racismo religioso.

Por uma educação antirracista

Após a homenagem, teve início a roda de conversa, mediada pela jornalista Ana Carolina Pacífico e com a participação de Dirléia Aparecida Matias, especialista em metodologia do ensino, e da própria Iyagunã.

“Viva o nascimento do Coletivo Antirracista Iyagunã do SISMUC. Vida longa à Curitiba antirracista”, declarou Mirele Cristine Santos do Amaral, assistente social e militante nos movimentos de defesa da igualdade racial, que abriu o debate.

A conversa girou em torno do papel da escola na formação das crianças negras e de como o racismo já se manifesta nesse ambiente desde cedo. As participantes discutiram caminhos para trabalhar o tema ainda na infância, apontando a educação como ferramenta central de enfrentamento ao racismo.

Dirléia destacou a importância de um processo formativo contínuo e reforçou o papel da identificação e da representatividade no desenvolvimento das crianças negras.

Iyagunã, por sua vez, contou sobre sua própria trajetória e relembrou a infância e o incentivo da mãe aos estudos. “Os sim foram muito poucos. Eu fiz o que era possível e um pouco do impossível também. Se cheguei onde cheguei foi por causa da educação”, afirmou. 

Sobre os desafios ainda enfrentados no combate ao racismo, completou: “O racismo muda de face, muda de estratégia. A gente tem que estar preparado para tudo isso.”

Ao final, a roda foi aberta para perguntas e consideraçoes do público a respeito do assunto, que não se encerrou no evento. 

O Coletivo Antirracista Iyagunã é um espaço permanente de atuação do SISMUC. Os próximos encontros serão divulgados em breve. Para acompanhar as novidades e participar da organização, servidoras e servidores podem entrar no grupo de WhatsApp do coletivo pelo link: https://chat.whatsapp.com/Fvp5m42nQYc4ZF3N0pFfx3?mode=gi_t

Presenças

O lançamento do coletivo reuniu representantes de diversas instituições, entre elas a UFPR, a Ordem dos Advogados do Brasil – seção Paraná (OAB-PR), o Conselho Tutelar, a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Paraná (Sindijus), o Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor), o Governo do Estado do Paraná, a Rede de Mulheres Negras do Paraná, o Conselho Municipal de Política Étnico Racial de Curitiba (COMPER), a Escola de Samba Sankofa e o Sindicato dos(as) professores(as) e funcionários(as) de escola do Paraná (APP-Sindicato).

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