Pesquisa com polilaminina desenvolvida em universidade pública aponta avanços no tratamento de lesões medulares

Fotos: Reprodução/Internet

Nesta terça-feira (03/03), um paciente de 70 anos recebeu a aplicação da polilaminina em um hospital de Curitiba. Após sofrer uma queda e fraturar a coluna, ele ficou sem movimentos abaixo da cintura. O procedimento integra uma pesquisa iniciada há mais de 25 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e desenvolvida com investimento público. Todas as aplicações realizadas até o momento ocorrem de forma totalmente gratuita para os pacientes.

A substância foi criada pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se formou na graduação, no mestrado e no doutorado e atua como docente desde 1995. É dentro da universidade pública, sustentada por recursos do Estado e dedicada à formação científica, que a pesquisa foi concebida, testada e transformada em protocolo clínico.

Até o momento, foram registradas 30 aplicações no país, sendo oito em território paranaense.

A polilaminina é uma proteína sintética desenvolvida a partir da laminina, molécula naturalmente presente no organismo humano e encontrada em grande quantidade na placenta. No sistema nervoso, ela desempenha papel fundamental no crescimento dos axônios, estruturas responsáveis por transmitir impulsos nervosos. Quando ocorre uma lesão medular, esses axônios podem ser rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo, o que pode resultar em paraplegia ou tetraplegia.

Desenvolvida a partir dessa base biológica, a polilaminina atua como um suporte aplicado diretamente na área lesionada, com o objetivo de estimular a regeneração e a reconexão das fibras nervosas.

Em entrevistas, Tatiana resume o princípio da descoberta: “Eu inventei um jeito de fazer uma proteína que era natural, que já tem no corpo, para ela ficar meio turbinada e virar um remédio. E aí ela faz recuperar os neurônios que estão partidos, faz crescer de novo a fiação e aí reconecta.”


O primeiro caso mundial

O caso mais emblemático da pesquisa é o de Bruno Drummond de Freitas, bancário, que se tornou o “paciente 01” no mundo a receber o tratamento experimental com polilaminina para lesão medular. Em 2018, ele sofreu um acidente automobilístico que resultou em uma lesão cervical completa e tetraplegia. Três semanas após a aplicação da substância, apresentou os primeiros movimentos voluntários — inicialmente no dedão do pé. Com a evolução do quadro, voltou a andar de forma independente e hoje treina musculação, levantando peso.

O caso é considerado um dos principais indicativos do potencial regenerativo da substância. Embora os pesquisadores ressaltem que os estudos clínicos precisam ser concluídos para comprovar segurança e eficácia, os resultados iniciais são classificados como animadores e reforçam a possibilidade concreta de recuperação funcional.


Protocolo clínico e prazo de aplicação
No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou o início do estudo clínico de fase 1. Essa etapa é voltada à avaliação da segurança da substância em pacientes com trauma raquimedular agudo.

O protocolo estabelece que a aplicação deve ocorrer em até 72 horas após a lesão. Essa janela terapêutica é considerada estratégica pelos pesquisadores, pois a intervenção precoce pode ampliar as chances de resposta biológica e de recuperação neural. Nesta fase inicial, cinco pacientes poderão ser selecionados dentro desse critério temporal.


Ciência pública investimento público tratamento gratuito
O desenvolvimento da polilaminina ocorre em parceria com o laboratório Cristália, mas sua origem está na pesquisa básica realizada dentro da universidade pública, com financiamento público. Da investigação celular aos estudos clínicos, todo o percurso foi estruturado em um ambiente acadêmico dedicado à produção científica de longo prazo.

As aplicações realizadas até agora são gratuitas, sem custo para os pacientes. O tratamento experimental não está disponível na rede privada nem comercializado. Ele integra um protocolo científico rigoroso conduzido no âmbito da pesquisa pública.

Em um cenário de questionamentos e tentativas de deslegitimação do ensino superior estatal, a trajetória da polilaminina evidencia o papel estratégico das universidades públicas brasileiras. É nelas que se concentram laboratórios de alta complexidade, formação de mestres e doutores e pesquisas capazes de gerar inovação com impacto social direto.

Mais do que um avanço biomédico, a pesquisa demonstra que investimento público em ciência é política de Estado. Pode significar autonomia tecnológica, soberania científica e, sobretudo, possibilidade concreta de devolver mobilidade, independência e qualidade de vida a pessoas com lesões graves.

A aplicação realizada nesta semana em Curitiba integra essa trajetória iniciada há mais de duas décadas por Tatiana e sua equipe de pesquisadores. Não se trata de um evento isolado, mas do resultado acumulado de um sistema público de ensino e pesquisa que segue produzindo conhecimento, tecnologia e esperança.

A experiência também reforça a necessidade de ampliar o investimento público em ciência e educação. Avanços como esse dependem de recursos robustos e contínuos para universidades públicas, institutos tecnológicos e centros de pesquisa, além da abertura de novas instituições, financiamento para projetos científicos e condições adequadas para que pesquisadores possam desenvolver seus estudos. Fortalecer a educação e a ciência pública é garantir que descobertas capazes de transformar vidas continuem sendo produzidas no país.