Uma luta em primeiro plano

O debate integra o mês da consciência negra. Nesta
entrevista, Angela abordou a importância das políticas reparatórias,
preconceito racial, política, integração social e cultura. A professora ainda
alfinetou o fim da abolição. Confira:

Jornal do Sismuc: Por
que os negros precisam de cotas? Eles não podem vencer pelo seu próprio mérito?

Angela Elizabeth
Sarneski:
Nós vencemos pelo nosso próprio mérito. As cotas surgiram para
corrigir desigualdades geradas com o movimento escravocrata. Logo, essa ideia
de que as cotas raciais, sociais e indígenas tiram vagas é equivocada. Até
porque o aluno negro e o da escola pública concorrem na primeira etapa igual a
todo mundo (no caso da UFPR). O que a cota faz é criar a oportunidade de nós
frequentarmos a universidade pública.

Jornal do Sismuc: Os
pobres brancos não têm cota. Eles não são duplamente punidos?

AES:Eles têm.
Essa é uma informação que as pessoas desconhecem. Por isso elas se tornam
contra. É necessário, portanto, ampliar esse debate nas escolas. Uma vez, um
aluno me disse ser contra a política de cotas. Eu lhe perguntei se ele era
contra a cota social. Ele negou. Eu vejo, portanto, isso mais como preconceito
do que ser contra, pois essas cotas retiram uma percentagem mínima das vagas
que eram preenchidas apenas pela elite antigamente.

Jornal do Sismuc: O
Brasil já elegeu um metalúrgico e uma mulher que lutou contra a Ditadura. O que
precisa para um negro chegar ao ápice?

AES:Eu acho que
o papel das cotas, no futuro, é justamente criar essas oportunidades.
Antigamente não se via a universidade e seus espaços acadêmicos com negros
estudando. Hoje, com 10 anos, formamos médicos, advogados, etc. Tem crescida a
participação do negro e do branco que veio da escola pública. Por outro lado,
há um poder econômico, elitizado, que busca impedir nossa ascensão. Veja o caso Obama (presidente dos EUA). Ele
tem sofrido bastante com uma elite que tenta impedir que o país cresça de forma
igual. Contudo, mais do que o poder, o que buscamos é uma vida melhor para
todos.

Jornal do Sismuc:
Mais uma vez a justiça proibiu o feriado da consciência negra. Por que isso
acontece?

AES:Considero
uma questão política. A desculpa de que o feriado diminui o comércio não cola.
O que se tenta é evitar que o Paraná tenha esse marco que é o 20 de novembro
enquanto feriado. Nesta data, com o feriado, estaríamos nas ruas maciçamente
comemorando e discutindo as pautas do movimento negro.

Jornal do Sismuc: O
Brasil e os brasileiros celebram heróis e atos negros? Por que isso acontece.
Por que Zumbi não é herói nacional como Tiradentes?

AES: Acho que é
resultado do preconceito por ele ser negro. Para muita gente, nós temos que
ficar em segundo plano. O negro não aparece em livros didáticos como heróis.
Nos registros, eles são escravos, humilhados. Por isso, precisamos rever tudo
isso.

Jornal do Sismuc: Por
que é importante os sindicatos e movimentos sociais discutirem a questão da
consciência negra?

AES:Justamente
para diminuirmos a falta de informação. Tentarmos acabar com todo tipo de
preconceito. Muitas vezes agimos
pontualmente e não frequentemente. Agimos em datas “comemorativas” como o 13 de
maio. Mas essa data, por exemplo, nem é mais comemorada por nós. Ela é
questionada. Não houve abolição ou benevolência. Na verdade, o grande tráfico
de escravos não servia mais, por isso a Lei Aurea foi assinada. Por isso
comemoramos 20 de novembro, dia do assassinato de Zumbi dos Palmares, e 31 de
março, que é dia de combate à discriminação racial.

– O que é Cota Social?

Na cota
social,metade das vagas reservadas (ou seja,
25% do total de vagas oferecidas no vestibular) serão destinadas a candidatos e
candidatas provenientes de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário
mínimo per capita. O texto foi aprovado em 2012.