Artigo de opinião – Nada a temer, senão esquecer o medo.

Por Adriana Kalckmann, professora de educação infantil. 

Eu não temo o filho 01, nem o marido da “conja”. O que me preocupa são os seus eleitores.

Preocupa-me a professora que não exercita o pensamento crítico, o médico, a enfermeira ou o cientista que rejeitam evidências científicas, inclusive sobre vacinas. Preocupam-me as pessoas que transformam fobias, preconceitos e crenças pessoais em argumentos contra fatos comprovados.

Porque são essas pessoas que estão ao nosso lado no dia a dia. São elas com quem convivemos e conviveremos no trabalho, na família, na escola, nas ruas.

Pessoas às quais ainda falta a compreensão de que o fato é fato. Fake é fake. O pensamento crítico significa, antes de tudo, saber diferenciar os dois. Significa questionar, buscar fontes, confrontar informações e reconhecer quando estamos sendo enganados. Combater a desinformação não é impor uma verdade política. É ensinar e aprender a reconhecer a diferença entre opinião e evidência, entre convicção e fato, entre liberdade de expressão e manipulação.

Hoje carrego comigo uma profunda revolta.

Pessoas que passaram pela minha vida, por quem em algum momento desenvolvi afeto, respeito e admiração, hoje me provocam um sentimento de indignação.

E não é porque não gostam do Lula. Ninguém é obrigado a gostar do Lula ou do PT.

O que me incomoda é não entender até onde pode chegar a aversão a Lula e ao PT para que tudo seja relativizado?

Até onde um posicionamento político pode nos levar a abandonar o senso crítico, a negar evidências, a aceitar mentiras e a transformar preconceitos em argumentos? A polarização entre esquerda e direita, palavras que, ironicamente, muita gente utiliza sem sequer compreender plenamente o que significam, no fundo revelam valores. E eu não quero mais fingir uma tolerância social que não sinto.

Não precisamos pensar igual em tudo. Discordar faz parte da democracia. Podemos ter opiniões diferentes, votar em candidatos diferentes e ainda assim preservar o respeito, o diálogo e a convivência. Amizade, para mim, pressupõe alguma comunhão de valores. Existem limites. Quando a divergência deixa de ser sobre escolhas políticas e passa a envolver a relativização da verdade, a negação de evidências, a defesa de preconceitos ou a aceitação consciente da desinformação, já não estamos falando apenas de política. Estamos falando de valores. E quando os valores que sustentam uma relação deixam de existir, é preciso ter coragem para reconhecer que não há relação alguma.

Vivemos um momento em que temos de esquecer o medo. Não o medo de uma eleição ou o resultado das urnas. O verdadeiro perigo é ter medo de questionar aquilo em que acreditamos.

Por isso, não tenho medo de discordar. Não tenho medo de romper silêncios.

Não tenho medo de perder relações que já não se sustentam nos mesmos valores.

Quero ter coragem de continuar pensando, questionando e defendendo aquilo em que acredito.

Porque, no fim, talvez seja exatamente isso que a frase nos ensina: Nada a temer, senão esquecer do medo.

 

“Que a coragem seja maior que o medo, a esperança maior que o cansaço e a vontade de lutar maior que qualquer obstáculo. Desistir,não é uma opção”