Eduardo Pimentel (PSD) prometeu 36 CMEIs, mas Secretaria de Educação afirma que serão apenas 5 nos próximos 3 anos; fila tem 3.500 crianças

Foto de capa: ROBSON MAFRA/AGIF

“Vou estar com vocês, podem confiar. Sou um homem de palavra, vou cuidar da nossa cidade, liderar uma Curitiba, unida e pra frente”, disse Eduardo Pimentel em entrevista coletiva na sede do Tribunal Regional Eleitoral, em 27 de outubro de 2024.

“Na educação, eu vou gerar nove mil vagas de creche, construindo 36 novos CMEIs, que nós já temos provisionamento financeiro, 30 através de recursos do BNDS e seis através do Governo do Estado”. Esta foi mais uma das promessas feita à população curitibana por Eduardo Pimentel (PSD), durante entrevista concedida à imprensa, no dia 15 de outubro, dia das professoras. O compromisso, que parecia ser a saída para solucionar os problemas enfrentados na educação pública por milhares de curitibanos, tudo indica que ficará apenas no papel, já que dados conseguidos pelo SISMUC, via Lei de Acesso à Informação (LAI), demonstram que as mais de três dezenas de Centros de Educação Infantil não se efetivaram na gestão do Prefeito.

A contradição entre o discurso e os documentos oficiais é escancarada. Segundo dados apresentados pela Superintendência de Infraestrutura da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba (SME), no dia 17 de abril, via LAI, nos próximos três anos há previsão de iniciar a construção de apenas 5 novas unidades, sendo 2 com início em 2026 e 3 com início em 2027. A construção se dará com recursos do governo federal, via Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), e do programa Infância Feliz, do governo estadual. Ou seja, com este plano, a Prefeitura de Curitiba não cumprirá o que prometeu e nem sequer pretende investir recursos próprios do município na construção de novas unidades.

Ainda de acordo com a Superintendência, “encontra-se em andamento estudo técnico, em conjunto com o IPPUC – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, para o desenvolvimento de projetos de 8 novas unidades, cujas regionais e cronogramas serão definidos após a conclusão dos estudos e viabilizações técnicas”. Traduzindo: projetos sem prazo, sem recurso garantido e sem qualquer compromisso concreto de saírem do papel.

 

Unidades entregues nos últimos anos

Os dados históricos reforçam o descompasso entre promessa e entrega. Desde 2017, período que abrange a gestão iniciada com Rafael Greca e da qual Pimentel foi vice-prefeito, foram entregues apenas 4 unidades.

No recorte mais recente, três CMEIs foram construídos do zero: Dom Barusso (2023), Aroeira (2025) e CIC II (2026). Outras duas unidades, CMEI Vila Nori e CMEI União Ferroviária I, foram concluídas ou seja, correspondem a obras remanescentes de gestões anteriores. Em quase uma década, o saldo de expansão estrutural da rede permanece limitado.

Confira os dados organizados abaixo e a quantidade de CMEIs construidos em cada gestão nos últimos 16 anos:

 

 

 

Fila de espera e pressão sobre a primeira infância

Construir CMEIs está longe de ser algo eleitoreiro: é necessidade diária de quem precisa ter suas crianças em um espaço seguro, aprendendo e se desenvolvendo de forma correta. De acordo com a SME, atualmente mais de 3.500 crianças de 0 a 3 anos aguardando vaga em CMEIs. A pressão é maior entre os bebês: no berçário I são 1.054 crianças; no berçário II, 1.410; no maternal I, 613; e no maternal II, 472. A concentração na primeira infância evidencia a urgência de ampliação da rede pública, especialmente nas regiões periféricas.

Vale-creche: uma solução que terceiriza responsabilidades e transfere custos

Se por um lado a gestão de Eduardo Pimentel não demonstra interesse em avançar na construção de CMEIs e cumprir com a sua promessa de campanha, por outro, tem se empenhado em terceirizar a sua responsabilidade como chefe do Executivo. Um dos exemplos diz respeito ao vale-creche. A medida anunciada no primeiro semestre da sua gestão nada mais é do que repassar até mil reais às famílias para que elas busquem, por conta própria, uma vaga em escolas privadas.

Mas, será que a medida resolveu o problema das famílias que esperam por uma vaga em CMEIs? A resposta está nos dados oficiais apresentados pela própria SME.

Os dados mais recentes disponíveis, referentes a setembro de 2025, são implacáveis: o sistema ainda registrava 3.542 crianças de 0 a 3 anos aguardando atendimento -um número praticamente idêntico ao registrado antes do programa. 

Mesmo com o anúncio de 4.626 benefícios concedidos entre abril e agosto de 2025, a fila de espera não reduziu de forma estrutural. Pelo contrário, a própria Secretaria admite que a lista é dinâmica e que novas inscrições ocorrem diariamente, revelando que o vale-creche atua como paliativo, não como política de Estado. Na prática, a Prefeitura maquia o problema enquanto transfere a responsabilidade para as famílias.

 

Território mais pressionado: Tatuquara

A Regional do Tatuquara concentra o maior volume de demanda por vagas em CMEIs na cidade. Em setembro de 2025, a região registrava 1.656 crianças na fila de espera e, ao mesmo tempo, 1.133 cadastros contemplados pelo vale-creche.

Os dados mais recentes indicam uma redução no número de famílias aguardando atendimento, com 1.053 crianças ainda na fila atualmente. Apesar dessa diminuição, o contingente permanece elevado e revela que a demanda por educação infantil segue longe de ser plenamente atendida.

Na prática, mesmo com a ampliação do uso do vale-creche na região, o direito à vaga em CMEI ainda não está garantido para um número expressivo de famílias do Tatuquara, que seguem dependendo de soluções provisórias em vez de acesso direto à rede pública.

O Sindicato é taxativo: o caminho é construir CMEIs, não terceirizar vagas. “A ausência de investimento direto na construção de novas unidades públicas mantém a pressão sobre as famílias e perpetua a fila de espera. Quando políticas estruturais são substituídas por mecanismos de terceirização, a crise na educação infantil em Curitiba se aprofunda”, afirma a entidade.

O Sindicato também reforça: “É preciso transparência sobre a aplicação dos recursos, inclusive os destinados ao vale-creche, além de planejamento efetivo para a expansão da rede pública de educação infantil”.