Com uma nova Lei Orçamentária Anual (LOA),
para 2017, entrando em discussão na Câmara de Vereadores de Curitiba e a proximidade
das Eleições Municipais, é preciso discutir um mecanismo que abasteça a
sociedade com propostas concretas de gestão pública. Na edição deste mês, Ágora
entrevista o economista e consultor em finanças públicas e mercado de
trabalho Cid Cordeiro Silva para abordar o Orçamento Participativo (OP).
Integrante como
parte da Democracia Participativa, o OP hoje é um mero figurante de gestores
burocratas. “Está esgotado o modelo de pensamento restrito a poucos, que
assumem para si o direito de serem os únicos a planejar a cidade, apenas porque
foram eleitos. É preciso democratizar a gestão”, aponta Cid Cordeiro.
Os modelos
engessados de planejamento municipal estão ultrapassados, com os problemas
evoluindo para além da capacidade de gestões temporárias. São necessárias
políticas permanentes, que garantam gestão urbana direcionada aos mais pobres,
com decisões compartilhadas dos recursos orçamentários com quem realmente enfrenta
as dificuldades da cidade.
Cordeiro
ressalta que o momento requer a derrubada dos limites da participação e
radicalização da vontade política. “O OP precisa ser consolidado com agente
ativo da democracia, colocando nas mãos da população o destino da cidade,
levando a sociedade a crer que ela pode, concretamente, decidir o que é melhor
para ela própria”, define.
ÁGORA | Por que o Orçamento
Participativo não se tornou política pública efetiva?
CID
CORDEIRO (CC) | A ideia, quando se criou o Orçamento
Participativo, era pra incentivar o envolvimento da sociedade nos rumos da
cidade. Um novo mecanismo de transformação social, com discussão e decisão
direta de quem é o alvo do planejamento de municipal.
Mas a política pública em si não se efetivou por que a aplicação, ainda,
não está pensada como mecanismo de participação. Criou-se a obrigação, mas sem
estabelecer a forma concreta de envolver a população. Assim, cada prefeitura
faz como quiser, com critérios distintos e considerando qualquer ação como
aplicação do orçamento participativo, mesmo que não seja.
ÁGORA
| O modelo de gestão da maioria das cidades, de centralidade nas propostas de
cada prefeito e não de uma continuidade de projetos, está falido?
CC | Há muito tempo, por
isso chegamos a atual crise financeira, de gestão e de falta de criatividade
(planejamento) dos municípios. Isso tudo revela o esgotamento natural quando
o “pensar” a cidade fica restrito a um grupo de burocratas que se atribuíam o
direito de serem os únicos a planejar a cidade, acima do que pensam cidadãos
que nela moram. A complexidade e diversidade das cidades ficaram maiores que a
cabeça desses “pensantes”. É preciso ouvir, deixar participar quem convive com
os problemas do dia a dia da sua moradia.
ÁGORA
| As cidades e o desenvolvimento urbano pedem outro tipo de administração?
CC | Ou pensamos outro tipo de administração ou não encontramos saída para essa crise que as cidades vivem. Aliás, a crise não é só financeira, por conta da recessão, é crise desse
modelo arcaico e autossuficiente que alguns “iluminados” se creditam no
direito de só eles pensarem a resolução dos problemas que vivemos.
ÁGORA
| Falta qualificação ao município para discutir propostas coletivas. Você
credita isso ao modelo politico de gestão?
CC | Não falta
qualificação aos municípios. Vivemos um processo democrático na escolha dos
governantes (eleições), mas que não é democrático na gestão, não cria
mecanismos para os cidadãos votarem as prioridades das políticas públicas, dos
investimentos. Democratizamos a escolha do gestor, mas temos que dar esse
passo maior que é democratizar a gestão.
ÁGORA
| Hoje as consultas públicas se transforaram em meras reuniões ampliadas?
CC | Mera formalidade, audiências para cumprir calendário. As prefeituras – no geral – divulgam formalmente convites para
audiência pública, mas não criam nenhum mecanismo de participação popular na
discussão orçamentária. Some-se a isso, a presença de cargos comissionados é
muito maior que da população, demonstrando uma falsa ideia de participação. Os
espaços se transformam em confraternização do que participação. Em sua maioria
são reuniões em que a prefeitura expõe o que quer, não estimula o debate, inibe
as perguntas e divergências. É o velho modelo com roupagem nova.
ÁGORA
| Que benefícios imediatos a instituição imediata do Orçamento Participativo
pode trazer à cidade?
CC | O benefício de contemplar nas políticas públicas os diferentes olhares
dos cidadãos, setores organizados, entidades. A forma de pensar a cidade se
torna plural, portanto mais amplo, mais democrático, mais eficiente, mais
inclusivo, essa é a “química” que falta para a criatividade ressurgir na forma
de pensar a cidade.





