Por Ana Carolina Pacífico, jornalista.
Hoje pela manhã, bem cedo, levei um susto ao ver um rato na rua, bem próximo ao meu pé. Ele apareceu do nada, saindo de um arbusto. Meu primeiro instinto foi sentir repulsa, mesmo que naquele momento ele não representasse nenhuma ameaça pra mim.
No final desse mesmo dia, volto pra casa depois de ficar 4 horas em pé em frente a uma escola, em Curitiba, cobrindo a invasão do CMEI São Braz por um homem armado, que até então, não se sabia ao certo se ele possuía consigo uma faca ou arma de fogo. Em uma sexta-feira em que tudo parece correr naturalmente, um sujeito decide fazer de refém professoras e 13 crianças de uma turma de maternal.
Foram 4 horas de completo terror, assistindo em tempo real a aflição de mães, pais, avós e familiares que chegavam com olhares marejados de medo e, depois, de alívio, quando recebiam suas crianças e podiam ter a certeza que elas não estavam entre aquelas feitas de refém. O abraço apertado de quem poderia voltar pra casa com seu filho. O terror foi acompanhar de perto o medo daqueles que não recebiam seus filhos e só restava aguardar o desfecho entre a negociação da polícia com o sequestrador.
Quase ao final da tarde, estremeci com o estrondo alto de explosões que vinha do complexo educacional. Instantaneamente, veio o grito aterrorizado dos familiares que aguardavam o fim daquele dia trágico. Não tínhamos como saber o motivo daquele barulho. A notícia chegou rápido: “deu tudo certo” eu ouvi as palavras sendo ditas por alguém. Ufa, alívio novamente.
“Deu tudo certo o que?” A pergunta pairou na minha cabeça. “O sujeito foi alvejado e todas as crianças estão fora de perigo!” APLAUSOS vem de dentro da escola. Em minutos, a mídia sensacionalista chega como ratos, câmeras e luzes no rosto das famílias e das crianças. Muito choro. Congratulações à atuação da polícia militar do Paraná. E as professoras que permaneceram como reféns e agiram com calma para tranquilizar as crianças? Foram apagadas pela pressa em espetacularizar a notícia.
E então eu pensei: Por que as pessoas têm medo de rato? Fui pesquisar os principais motivos que levam alguém a temer esse roedor.
Uma das respostas aponta que o focinho pontiagudo, os bigodes compridos, os olhos pretos e brilhantes e, principalmente, a cauda sem pelos e escamosa causam repulsa visual e tátil na maioria das pessoas.
Outro motivo é que eles costumam surgir de bueiros, frestas ou esgotos escuros, aparecendo de repente e pegando a pessoa desprevenida.
Assim é a violência. Ela te pega de surpresa. E, assim como os ratos, se não estivermos atentos, a violência se prolifera sem a gente perceber. Se entoca e cresce, formando uma família.
A violência se torna barbárie quando a normalizamos. Em poucos meses, como jornalista, precisei escrever dezenas de notas de repúdio aos episódios de violência contra servidores públicos.
Esta semana, digerimos o resultado do primeiro turno das eleições no Brasil. A imagem que circula nas redes sociais, é de eleitores comemorando com camiseta da seleção brasileira e, entre eles, uma criança segurando uma arma de fogo. A criança não sabe porque lhe entregaram aquele objeto. A criança não sabe que os adultos expuseram sua imagem de forma tão violenta.
Para o medo dos ratos? Veneno e ratoeira. Eu me pergunto se há veneno que baste para matar o medo que nós mesmos escolhemos cultivar.







