O 1º de Maio, Dia da Trabalhadora e do Trabalhador, segue como um marco de mobilização e memória coletiva. A data levou novamente às ruas o debate sobre direitos, condições de trabalho e qualidade de vida. Em Curitiba, a concentração aconteceu na Praça 19 de Dezembro, reunindo centrais sindicais, sindicatos, movimentos sociais e mandatos populares em torno de pautas que dialogam diretamente com o cotidiano dos servidores públicos e da classe trabalhadora.
Entre os temas centrais deste ano esteve o fim da escala 6×1, modelo ainda presente na rotina de milhões de brasileiros e que impõe jornadas prolongadas com apenas um dia de descanso. Embora o funcionalismo municipal tenha regimes próprios, a discussão não está distante da realidade dos servidores de Curitiba. Em áreas como saúde, educação e assistência, o que se observa é a intensificação do trabalho, equipes reduzidas e uma demanda crescente por serviços, frequentemente além dos limites formais da jornada. Esse cenário ajuda a explicar por que a pauta tem ganhado força também no debate público e institucional.
No Congresso Nacional, a discussão vem desde 2023 e ganhou impulso em 2024, quando a deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) apresentou uma proposta de emenda constitucional que trouxe para o centro do debate a reorganização da jornada de trabalho no país, incluindo a crítica à escala 6×1. Mais recentemente, o governo federal do presidente Lula (PT) passou a atuar para acelerar a tramitação, enviando ao Congresso um projeto com urgência, com o objetivo de unificar e dar andamento às propostas já existentes.
A partir desse movimento, a Câmara dos Deputados passou a organizar a análise do tema na Comissão de Constituição e Justiça, sob condução da presidência da Casa. O que está em discussão entre os parlamentares não é uma mudança imediata, mas a implementação de uma transição progressiva ao longo dos próximos anos. A proposta prevê a redução gradual da carga semanal de trabalho, com diminuição ano a ano: a jornada passaria para 43 horas semanais em 2027, 42 horas em 2028, 41 horas em 2029, até atingir o limite de 40 horas semanais em 2030. Ao final desse processo, a ideia é consolidar um modelo com dois dias de descanso remunerado por semana, aproximando-se do padrão 5×2, sem redução salarial e com tempo de adaptação para diferentes setores.
Dados revelam o peso das jornadas extensas
Os números ajudam a dimensionar o problema. Sete em cada dez trabalhadores brasileiros cumprem jornadas de 44 horas semanais. Entre os celetistas, cerca de 37,2 milhões ainda trabalham acima de 40 horas por semana, o equivalente a aproximadamente 74% dessa população. Dentro desse universo, 14 milhões enfrentam a escala 6×1, convivendo com apenas um dia de descanso semanal.
Além disso, 26,3 milhões de trabalhadores não recebem horas extras, o que indica que, na prática, o tempo dedicado ao trabalho costuma ser ainda maior. Os impactos aparecem também na saúde: em 2024, o Brasil registrou cerca de 500 mil afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho, evidenciando os efeitos de jornadas prolongadas e ambientes de pressão.
As jornadas mais extensas estão concentradas entre trabalhadores de menor renda e escolaridade, o que reforça o caráter desigual dessa realidade. Nesse sentido, a redução da jornada também se apresenta como uma medida com potencial de enfrentar desigualdades estruturais no mundo do trabalho.
Mulheres sentem de forma mais intensa a sobrecarga
A sobrecarga de trabalho não se distribui de forma igual e recai de maneira mais intensa sobre as mulheres. Além da jornada remunerada, há o acúmulo de responsabilidades domésticas e de cuidado. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, enquanto os homens dedicam 11,7 horas.
A diferença de 9,6 horas semanais evidencia uma dupla jornada persistente, que se intensifica entre mulheres pretas e pardas, que dedicam ainda mais tempo ao trabalho não remunerado. Nesse contexto, a redução da jornada formal também aparece como uma medida que pode contribuir para maior equilíbrio no uso do tempo e melhoria das condições de vida.
O apoio à mudança também se reflete na opinião pública. Pesquisa realizada no início de 2026 indica que 84% dos brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso semanal, enquanto 73% apoiam o fim da escala 6×1, desde que haja manutenção dos salários.
Ao ampliar o tempo livre, a proposta recoloca no centro do debate o direito ao descanso, à convivência e à vida para além do trabalho. A mobilização reforça que direitos não são concessões, mas conquistas históricas, e que seguem em disputa no presente.
Com informações EBC e Governo Federal







