Não é de hoje que os fazedores culturais de Curitiba estão
insatisfeitos. Fandangueiros, bailarinos, atrizes, músicos, produtores, pessoas
que fazem cultura na capital paranaense realizaram intervenção no último dia
três, em frente à Prefeitura. A pauta é extensa por ser histórica e traz a
promessa não cumprida de Gustavo Fruet como mote: 1% do orçamento para a
Cultura.
Felipe Prando é artista visual e professor e integra a Frente
Acorda Cultura Curitiba, que convocou a manifestação. Para ele, o problema não é
orçamentário e sim de gestão. “Para nós é muito claro que não existe plano de
governo para a Cultura no município. Achamos estranho que em dois anos de
gestão isso não tenha sido feito”, critica. As prioridades seriam estabelecer um programa, reestruturar a carreira dos servidores da Fundação
Cultural de Curitiba (FCC) e abrir novos concursos para repor a falta de
quadros.
Ele reconhece que, não fosse a atuação de funcionários que
trabalham sem qualquer estrutura ou reconhecimento na Fundação, muitos dos equipamentos
culturais já teriam fechado. “São eles que garantem que um mínimo da gestão
cultural ainda aconteça. Mas é preciso abrir concursos e estruturar a carreira
desses servidores, o que não acontece há mais de 20 anos”, afirma.
Durante a manifestação, os presentes primeiro formaram uma
fila indiana que deu a volta na esquina, entrando no estacionamento da
Prefeitura. Em silêncio, eles começaram a marchar portas adentro, mas foram
impedidos de entrar. Então os manifestantes deitaram e realizaram uma
intervenção silenciosa, erguendo somente os cartazes em suas mãos. O material
dizia “Não é só por 1%”.
Felipe dá vários exemplos da má gestão. “Reservas técnicas
não têm climatização, condição essencial para preservação da memória cultural e
histórica de Curitiba. A do Museu Municipal de Arte (MuMa) tem goteira e lá
tem, por exemplo, o acervo particular do Poty Lazaroto. Isso é patrimônio da
cidade que não está sendo preservado”, alerta.
E continua: “em algumas Casas de Leitura, os funcionários do Instituto
Curitiba de Arte e Cultura (ICAC) fazem vaquinha para comprar papel higiênico.
No Museu da Gravura, o público não pode usar o banheiro por falta de material
de limpeza. Ali também uma obra foi roubada. O Teatro Novelas Curitibanas foi
arrombado. Membros do Conservatório de Música de Curitiba ficaram quatro meses
sem receber salário”.
Ulisses Galetto é músico e produtor cultural. Assim como
Felipe, ele acredita que, mesmo com problemas de orçamento, falta habilidade na
gestão em questões básicas como planejamento, resolução de problemas imediatos,
condução de parcerias. “Ao longo de 2013, fui a seis Papos de Classe [evento
realizado pela FCC para discutir o cenário da gestão cultural no município]. Como
é que todo esse acúmulo não pauta a gestão?”, questiona.
Problemas e protestos
A Frenteenvolve pessoas de vários setores e entidades. O
website acordaculturacuritiba.com já conta com 1863 assinaturas, mas Felipe
reclama das manobras da Prefeitura. “A gestão segue tentando deslegitimar a
Frente na mídia e pelas redes sociais”, afirma ele. Logo que o sítio da Frente
foi lançado, por exemplo, a FCC respondeu em nota que “o Fórum das Entidades
Culturais (FEC) já foi recebido pelo prefeito”.
Com a força da mobilização, dois representantes da Frente
foram apontados para conversar com o prefeito: Felipe Prando e Ulisses Galetto.
“Falei para ele, olhando olho no olho, que estávamos ali para entregar nossa
carta, que o FEC não representa a Frente e que queríamos uma audiência”, conta
Ulisses. Entretanto, no perfil pessoal de Fruet no Facebook, ele afirmou que os
representantes teriam saído da reunião por conflito de agenda.
É que, coincidentemente ou não, no mesmo dia da manifestação
ocorreria uma audiência do prefeito com o FEC, que teria protocolado o pedido no
primeiro semestre de 2014. Ulisses, inclusive, é um dos fundadores do próprio
Fórum e critica a postura da gestão em se propor a dialogar somente com aquela
entidade, tendo em vista a diversidade e legitimidade da Frente.
O gabinete do prefeito teria informado que vai entrar em
contato até o dia 16 de dezembro para marcar, finalmente, uma audiência com a
Frente. Eles teriam protocolado em 25 de novembro um pedido, até então sem
resposta. Os manifestantes prometem um cronômetro no website e novo ato no dia
17 caso a Prefeitura não cumpra a nova promessa de audiência.
Confira no sítio todas as reivindicações da Frente: www.acordaculturacuritiba.com







