O que acontece quando quem cuida da cidade também começa a adoecer? Foi a partir dessa pergunta que o SISMUC analisou uma série histórica de mais de quatro anos sobre os afastamentos por motivos de saúde entre servidoras e servidores públicos municipais de Curitiba. O resultado dessa investigação está no dossiê inédito “Quem cuida da cidade está adoecendo”, lançado pelo Sindicato nesta quinta-feira (10/09).
O documento reúne dados obtidos pela equipe de jornalismo da entidade por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), junto ao Departamento de Saúde Ocupacional da Secretaria Municipal de Gestão de Pessoas (SMGP). A análise considera o período de 1º de janeiro de 2022 a 31 de maio de 2026 e permite observar não apenas a quantidade de afastamentos, mas também como o adoecimento se distribui entre diferentes áreas, cargos, diagnósticos, faixas etárias e gêneros.

Mais de 127 mil licenças em quatro anos
Entre janeiro de 2022 e maio de 2026, foram registradas 127.315 Licenças para Tratamento de Saúde (LTS), que correspondem a 764.250 dias de trabalho afastado por motivos de saúde. Em pouco mais de quatro anos, o tempo acumulado equivale a 2.093 anos de trabalho interrompido.
A série histórica também mostra que não se trata de um fenômeno concentrado em um único ano. Embora os registros tenham oscilado ao longo do período, 2024 concentrou o maior volume de afastamentos da série. Em 2025, os números permaneceram altos e, nos primeiros cinco meses de 2026, já foram registrados 61.631 dias de trabalho perdidos por motivos de saúde.
Mas o volume total é apenas uma parte do cenário. Quando os registros são distribuídos pelas áreas da administração municipal, aparece outro dado relevante: educação e saúde concentram, juntas, 84,7% das licenças registradas no período.
São setores que mantêm contato diário e direto com a população e concentram atividades marcadas por demandas físicas e emocionais, atendimento contínuo e responsabilidades que precisam ser mantidas diariamente. Entre os cargos com maior número de registros estão os professores de educação infantil, colocando em evidência o adoecimento entre profissionais que atuam diretamente no cuidado e na educação das crianças.
A análise por cargos, secretarias e diagnósticos permite avançar para outra dimensão do problema: o que está levando os servidores a se afastarem?
Quando o trabalho também adoece
Os diagnósticos registrados nas licenças mostram um quadro diversificado. Doenças do aparelho respiratório, problemas osteomusculares e transtornos mentais e comportamentais estão entre os principais grupos identificados no levantamento.
É nesse último grupo que aparece um dos principais sinais de alerta. Os transtornos mentais e comportamentais somaram 14.170 licenças, ou 11,1% do total, e apresentam uma trajetória de crescimento ao longo da série. Somente nos cinco primeiros meses de 2026, foram registrados 1.422 afastamentos relacionados a esses transtornos.
Os números mostram a dimensão do fenômeno, mas não explicam, sozinhos, o que existe por trás de cada licença. Para Wanderli Machado, secretária de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente do SISMUC, existe o risco de que situações relacionadas à organização do trabalho sejam naturalizadas ou tratadas como problemas pessoais. “Eu estou muito estressada, mas eu não associo o estresse à forma como o trabalho está organizado.”
A fala desloca o olhar do indivíduo para as condições em que o trabalho é realizado. Relações profissionais, demandas físicas e emocionais e a própria organização das atividades também precisam fazer parte da discussão quando se analisa o adoecimento dos trabalhadores.
Essa preocupação ganha ainda mais importância diante dos fatores psicossociais. Segundo Wanderli, esse tipo de adoecimento pode se prolongar e se repetir, exigindo acompanhamento contínuo. “O adoecimento, por fatores psicossociais, é um adoecimento repetitivo de tratamento prolongado. E é isso que a gente precisa dizer.”
É justamente essa perspectiva que orienta a análise do SISMUC. Ao reunir os registros de mais de quatro anos, o levantamento permite enxergar tendências que poderiam passar despercebidas quando cada afastamento é observado isoladamente.
O adoecimento também tem gênero
A série histórica mostra ainda que o adoecimento não atinge todos os servidores da mesma maneira. As mulheres representam 81,2% do quadro de servidores municipais, mas respondem por 87,1% das licenças registradas no período.
O dado ganha relevância diante da forte presença feminina em áreas como educação, saúde e assistência, marcadas pelo trabalho de cuidado e pelo atendimento direto à população. A diferença entre a participação das mulheres no quadro funcional e sua participação nos afastamentos reforça a necessidade de observar também como gênero, condições de trabalho e organização das atividades se relacionam com a saúde dos servidores.
O recorte de gênero é apenas uma das dimensões analisadas pelo dossiê. O levantamento também apresenta dados por secretaria, cargo, diagnóstico, faixa etária e duração dos afastamentos, permitindo observar como o adoecimento se distribui e se transforma ao longo do tempo.
Os dados apresentados nesta matéria são apenas parte desse levantamento. No dossiê completo, o SISMUC detalha a série histórica e apresenta os diferentes recortes que ajudam a compreender a dimensão do adoecimento no serviço público municipal.
Mais do que reunir números, a investigação transforma informações dispersas nos registros administrativos em um retrato sobre a saúde de quem mantém os serviços públicos funcionando todos os dias.







