Curitiba tem negros e negras?

A capital mais negra do sul do país tenta apagar parte de sua história e as pessoas que vivem na cidade.

 

Caminhar pelo Centro de Curitiba faz parte da minha rotina diária — seja ao percorrer o trajeto para vir trabalhar no SISMUC, seja para minhas atividades pessoais. Com a correria do dia a dia, é difícil notar os detalhes que contam a história de uma cidade, como a existência do Pelourinho de Curitiba: um local que era sinônimo de dor, sofrimento e castigos em escravos rebelados contra o regime escravocrata. Ou então, que a escultura na Praça 19 de Dezembro, é de um homem nu com traços negros. E, que a Catedral na Praça Tiradentes foi construída por mestres construtores negros (e nunca receberam o reconhecimento por seus trabalhos). 

Essas informações não estão nas salas de aula, muito menos nos museus espalhados pela cidade. Mas, tem uma galera se esforçando para mudar essa realidade e responder a pergunta de que sim, Curitiba não apenas tem negros e negras, como esta população foi responsável pela sua construção. Essa galera faz parte da Linha Preta Curitiba, um projeto que viabiliza uma caminhada pelo Centro de Curitiba, a partir de uma perspectiva afrocentrada.

 

Como funciona a Linha Preta?

Foi na manhã de um sábado ensolarado, que Melissa Reinehr e Candiero — fundadores do Centro Cultural Humaita e da Linha Preta Curitiba, guiaram o grupo de entusiastas pela história da população negra nesta caminhada. Iniciamos o passeio nas Ruínas de São Francisco e terminamos na Praça 19 de Dezembro. 

Além do objetivo de denunciar a insensibilidade da municipalidade perante a ancestralidade africana, o projeto também valoriza a presença negra na construção de Curitiba. Logo de cara, Mel e Candiero nos provocam com questionamentos do tipo “quem foi responsável por invisibilizar o povo negro?” e, durante as três horas de roteiro, fica claro que a memória afro é apagada pela elite branca que detém o poder da caneta na mão. 

A mesma elite, formada por aqueles que possuem cargos políticos, proíbiu em 1827 os batuques realizados em frente à Igreja do Rosário (pois eles aconteciam próximos à antiga Câmara de Vereadores), e atualmente dificulta que outros projetos relacionados à cultura afro sejam aprovados. Passam-se os anos, mas o intuito é o mesmo: a perpetuação do racismo estrutural, ou seja, a manutenção do poder (econômico, político e cultural) na branquitude. 

Mais do que existir – queremos pertencer

Curitiba é a capital do Sul do país com o maior número de pessoas declaradas negras (24%). Ok, os dados e a história nos contam que Curitiba tem negros. Mas, onde estão essas pessoas?

De acordo com o estudo realizado por Brenda dos Santos, Geslline Braga e Larissa Brum, a comunidade que uma vez ocupou a região central da cidade vive hoje em suas margens geográficas. É fundamental que negros e negras, além de ocupar todas as regiões da cidade, também ocupem os espaços de decisão — a Câmara Municipal e a Assembleia Legislativa do Paraná possuem baixíssima representatividade negra. 

A existência deve ser sinônimo de pertencimento ao local onde se vive, de compartilhamento de experiências e de troca com toda a sociedade. 


Saiba mais sobre a Linha Preta Curitiba no site e Instagram do projeto

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