Lava Jato: Tribunal Popular ou julgamento de Kafka?

Círculo de Giz

O teatro do dramaturgo alemão Bertolt Brecht é marcado pela
ideia recorrente de um tribunal popular. Aquele no qual os conflitos são
decididos pelo próprio povo, sem a intervenção de um juiz distante da classe
trabalhadora. A peça mais conhecida com essa ideia é o “Círculo de Giz
Caucasiano”, de 1944.

Talvez com esse espírito foi organizado, em plena República
de Curitiba, no dia 11 de agosto, um tribunal dos movimentos populares para
colocar à contraluz a polêmica Operação, como se a classe de juízes e
procuradores também pudesse experimentar um pouquinho o lugar simbólico do
banco dos réus. Nada mais pedagógico.

Processos kafkianos

Onze advogados renomados, simpáticos às causas sociais, além
do escritor Fernando Morais, dividiram-se entre juiz, jurados qualificados, advogado
de defesa (interpretado pelo ex-ministro da Justiça, Eugênio Aragão) e advogado
de acusação, interpretado pelo jurista Antônio Carlos de
Almeida Castro, conhecido como Kakay, que na prática atua na defesa de
investigados da Lava Jato.

A Operação, que projetou o juiz Sergio Moro, foi dissecada no
Tribunal Popular, com o Judiciário revelando-se o oposto do tribunal imaginado
por Brecht: estamos falando, na realidade, de situações em alguns casos dignas das obras de
Franz Kafka – o escritor checo que traduziu o Estado de exceção e punição, no
qual os personagens não sabem ao certo do que estão sendo acusados, ou como o
processo deve se concluir.

Eugênio Aragão concluiu o momento da acusação, sistematizando
o que movimentos populares têm denunciado: falta de ampla liberdade de
imprensa, vínculo midiático, atropelo do devido processo legal, seletividade e
uso desnecessário de conduções coercitivas, entre outros pontos, são percepções
comuns sobre o operativo.

O dilema de Napoleão

Em dado momento, com certo sarcasmo, o advogado de defesa da
Lava Jato, Kakay, inverteu a ordem dos fatores e escancarou a principal crítica
à Lava Jato: “O que significa um milhão de desempregados frente à História?”, reescrevendo
a frase clássica de Napoleão, que teria perguntado o que significaria milhões
de mortos frente à História?

Com isso, o debate não se limita apenas a “combater ou não a
corrupção”, mas compreender também que a Operação paralisou ramos produtivos da
economia e quebrou setores, caso do ramo naval brasileiro. Não havia outra
forma de combater a corrupção, com a mudança do sistema político, por exemplo?

Crime e Castigo

O operativo que projetou o juiz Sergio Moro, Deltan
Dalagnholl, Carlos Lima e companhia do Ministério Público Federal, com o “mega
sucesso” chamado “República de Curitiba”, que ajudou a derrubar uma presidenta
da República, foi condenado. 

A punição? que os procuradores da Lava Jato passem
um período em um acampamento do MST, em contato real com o povo. Para que o tal
Crime e Castigo – como sempre nos assombra o romance de Fiódor Dostoievski –,
não recaia apenas sobre a população pobre.