Fortalecer o Feminismo Popular

Quando falamos em Feminismo o uso do S no fim da palavra,
anunciando a pluralidade, deveria ser implícito. FeminismoS no plural. Assim
como “as esquerdas” e “as direitas” têm uma multiplicidade de posicionamentos,
pautas e sujeitos, o mesmo ocorre no feminismo. Há o feminismo liberal, o
feminismo radical, o feminismo “queer”, o feminismo marxista, o feminismo
interseccional, e o que temos chamado de “feminismo popular”, dentre várias
outras correntes. Adentrar em pormenores de cada uma delas não é nosso
objetivo. Mas entender como aproveitar o melhor entre três destas três últimas
vertentes pode implicar em verdadeiro acúmulo para a organização de mulheres
frente à sociedade patriarcal que vivemos.

O Feminismo marxista contribuiu em muito para pensarmos a
articulação entre o Patriarcado e o Capitalismo. O Patriarcado é entendido aqui como estrutura
social e cultural que pré-define papéis, espaços e trabalhos masculinos e femininos,
hierarquizando-os em relações de poder desigual e dominação. Contudo, o
Patriarcado não afeta todas as mulheres da mesma forma. Num sistema em que o
capitalismo avança explorando a classe que sobrevive de seu trabalho, são as
mulheres trabalhadoras as mais oprimidas.

Por isso a inviabilidade de pautarmos um “feminismo liberal”,
isto é, somente dentro das lógicas do mercado que atende as mulheres brancas e
ricas. Não adianta defender que as mulheres ocupem espaços de poder se ao mesmo
tempo defende-se a flexibilização do trabalho, liberalização da economia ou a
reforma da previdência que está posta, que afeta as mulheres trabalhadoras de
forma cruel com o Estado mínimo.

Se pensamos num feminismo de fato libertador devemos pensar
em um projeto coletivo que relacione ou interseccione as disparidades de
gênero, raça e classe ou do Capitalismo, Racismo e Patriarcado, estruturais na
sociedade brasileira. Este nó é perceptível facilmente quando vemos as faces
das trabalhadoras domésticas, das trabalhadoras da limpeza, das catadoras de
materiais recicláveis, daquelas que ocupam os postos de trabalho mais precários
no Brasil e gerenciam famílias – muitas vezes sozinhas – na labuta pesada
cotidiana. De nada adianta dizer que “hoje as mulheres ocupam o mercado de
trabalho formal”, se o trabalho doméstico – historicamente relegado e imposto
às mulheres – é ocupado por uma mulher negra e pobre para que a mulher branca e
rica possa estar no espaço público.

Os Feminismos, neste sentido, devem-se popularizar, sair dos
debates acadêmicos e, como já têm feito, ocupar as ruas; sair da visão estrita
do gênero para refletir de fato a classe e raça/etnia que têm atingido. É
preciso pensar um feminismo popular, um feminismo dialógico, real, nas bases da
troca de saberes e não da imposição bancária (aquela na qual apenas se
“deposita” conteúdo), como diria Paulo Freire. É preciso pensar numa educação
popular feminista que traga a partir da realidade das mulheres brasileiras suas
pautas e lutas, não um convencimento de “cima para baixo”.

Enraizar o feminismo e retomar o trabalho de base são os
desafios colocados após um longo período de institucionalização e engessamento
do debate. E para isso é necessário organização, objetivo e coletividade. Mais
uma vez Paulo Freire: “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho[a],
os homens [e mulheres] se libertam em comunhão”.

Para ler mais

KERGOAT, Danièle. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais.

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência.

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.

SOUZA-LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos.

HIRATA, Helena. Gênero, classe e raça Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais.

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