Opinião

  • 06/11/2017

    Aonde você estava, quando eu estava lá?

    Somente juntos e organizados poderemos reconstruir uma sociedade atualmente arrasada pela retirada de direitos

    No dia 16 de maio de 2017, eram quatro horas da manhã quando levantamos o acampamento em frente à Câmara Municipal de Curitiba. Sob forte chuva e a pressão imposta pela Polícia Militar, ficamos durante uma semana naquele que ficaria conhecido como o “Acampamento da Resistência”... Eu estava lá.

    Foram dois meses de atividades continuas contra o pacotaço de Rafael Greca. Participei de quatro ocupações que apenas adiaram a votação de uma série de projetos da Prefeitura de Curitiba com objetivo de retirar direitos e ainda sacar mais de R$ 600 milhões das contas dos servidores - como fez o governo do estado em 2015. 

    A saga terminou com um novo confronto com a PM, desta vez em frente à “Ópera de Arame”. Novamente bombas, novamente a retirada de direitos dos trabalhadores e movimentos sociais. Novo massacre do poder público, desta vez sob a batuta do prefeito Rafael Greca de Macedo.

    Dois anos antes, sob o comando do governador Carlos Alberto Richa, no dia 29 de abril, a praça Nossa Senhora de Salete estava cercada por policiais militares. Para qualquer lado que se olhasse, lá estavam eles, enfileirados como cães de guarda à espera do comando para avançar. Um helicóptero sobrevoou rasante o acampamento dos professores durante o almoço, levantando as barracas como se fossem brinquedos de papelão. De repente veio um silêncio sepulcral, para qualquer lado a visão era de policiais militares em marcha, avançando ao encontro dos manifestantes, com jatos de água.

    Quando as bombas começaram, eu olhava ao redor e não conseguia acreditar. Fiquei estática como se em um segundo eu tivesse sido transportada para um filme de guerra ou um daqueles jogos de computador onde o objetivo é exterminar o inimigo. E o inimigo naquele momento éramos nós, trabalhadores reivindicando pela não retirada de direitos.

    Apesar do massacre, me orgulho de estar lá, ao lado de professores, servidores da saúde, estudantes, não apenas para defender os direitos dos trabalhadores, que estavam sendo retirados na Assembleia Legislativa do Paraná, não apenas por solidariedade de classes, mas por um sentimento de justiça, por um sentimento de responsabilidade pelo outro. Sim eu estava lá.

    E estarei sempre na luta porque os massacres contra o povo não terminou. Nos últimos anos, só o governo federal apresentou pelos mais de 50 propostas que atingem diretamente o trabalhador e a sociedade. O PL 4330/2004, por exemplo, aprovou a terceirização sem limites. Já outros dois projetos pedem o fim da estabilidade do servidor público e dispensa por insuficiência de desempenho. Se não bastasse isso, tem projeto que tenta retirar o direito de greve e proposta para privatizar os presídios do Brasil. Todas medidas que atacam os trabalhadores enquanto juros, isenções de impostos e perdões de dívidas são mantidos para os ricos.

    Enfim, entre o 29 de abril de 2015 e 26 de junho de 2017, eu tive mais encontros com a PM do que com a minha família. Levei mais gás lacrimogêneo no rosto do que pude sentir em algum momento a suave brisa da manhã. E lutei mais contra a retirada de direitos do que durante toda minha vida para conquistá-los. E você, onde estava, quando eu estava lá? Onde você estará amanhã?

    O momento pede de nós, coragem e união. Somente juntos e organizados poderemos reconstruir uma sociedade atualmente arrasada pela retirada de direitos e pela imposição daqueles que estão no poder. É preciso resistir e lutar. Espero que, quando eu estiver lá, você esteja ao meu lado e juntos vamos reconquistar cada direito retirado e cada direito ainda não conquistado.

    Adriana Kalckmann
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