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Opinião

  • 11/10/2017
    revista Ágora

    Revolta dos Posseiros no Sudoeste do Paraná: uma vitória do povo

    A vitória garantiu que os posseiros e colonos construíssem uma das maiores experiências bem sucedidas de agricultura familiar

    Conhecida e estudada, a Revolta dos Posseiros do Sudoeste do Paraná, ocorrida em 1957, é um dos poucos exemplos na história do país em que o povo foi vitorioso. E a vitória garantiu que os posseiros e colonos construíssem uma das maiores experiências bem sucedidas de agricultura familiar.

    Ao contrário, se as companhias de terra, apoiadas pelo então governo do Paraná, tivessem sido vitoriosas, a região caminharia para ser um grande latifúndio com poucos proprietários e com a economia baseada no extrativismo da araucária.

    A vitória foi fruto da coragem da sociedade em defender duas questões fundamentais: primeiro, o ser humano, ameaçado, violentado e alguns mortos pela ação dos jagunços pagos pelas companhias para implantar o terror junto às famílias esperando uma debandada para a região de origem. 

    A terra não era vista pelos posseiros como um bem imobiliário, mas sim como um fator de produção de alimentos para saciar a fome da família e, posteriormente, com a venda do excedente, buscar uma melhora das condições de vida.

    Nos dias 9 e 10 de outubro de 1957 a mobilização foi tão grande que, com caravanas armadas de espingardas e ferramentas, tomou cidades, destruiu as sedes das companhias, expulsou os jagunços e implantou comissões administrativas. Esse momento foi o ponto alto na construção de uma rede de solidariedade entre os colonos e posseiros, fundamental para o período após a revolta.

    Foi a solidariedade que garantiu o enfrentamento das condições precárias da colonização: se não havia estradas, os mutirões entravam em ação para construí-las, se não haviam escolas, outro mutirão e professores voluntários, se não havia igreja, a união dos moradores a construía, se uma família não pudesse fazer sua roça por problemas de saúde, os vizinhos se juntavam e garantiam o plantio e a colheita, se um vizinho abatesse uma cabeça de gado, os vizinhos todos tinham carne fresca, se um vizinho fosse de carroça para a vila, fazia as compras para os outros, e, mesmo com o trabalho duro de “amansar a terra” sobrava tempo para o terço, o chimarrão e os serões.

    A experiência de solidariedade entre vizinhos fez voos maiores, pois as necessidades foram mudando. O resultado foi a criação de cooperativas para garantir a compra e comercialização coletiva, de sindicatos de pequenos agricultores para, inicialmente, cuidar da saúde com médicos e dentistas e em seguida ser porta voz das reivindicações, e também, a criação da Assesoar, entidade de apoio no estudo e debate sobre a realidade e formação de lideranças

    A vitória dos posseiros, em 1957, criou as condições para que tudo isso fosse possível. Embora o capitalismo tenha implantado no campo formas modernas de exploração da terra e da mão de obra, a agricultura familiar ainda predomina, se adapta e enfrenta seus desafios de forma organizada. Nos anos 80, com a crise do crédito e o excedente de mão de obra, muitos agricultores ficaram sem terra, mas foram capazes de se organizar em torno do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

    Nos anos 90, com a dificuldade de acessar o crédito no sistema bancário, criaram um sistema solidário de cooperativismo, a Cresol, hoje reconhecida mundialmente. Quando os filhos precisam sair da região para estudar, eles lutam e conquistam universidades, quando veem os familiares necessitando se deslocar para a capital para tratamento de saúde, são firmes e conquistam um hospital regional.

    A história da Região Sudoeste é única, genuína, rica e forte. É a prova de que a organização dá resultado, muda a história e supera desafios. O povo foi e é protagonista.

    Luciana Rafagnim
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Luciana Rafagnim #@titulo@#

Ex-deputada estadual, ligada à luta da agricultura familiar no Sudoeste

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