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Opinião

  • 31/08/2017
    Revista Ágora

    Exercícios militares com os EUA na Amazônia: risco a um conflito bélico com a Venezuela

    Trata-se do velho método imperialista de asfixia econômica de um país para exacerbar suas contradições internas

    No dia 11 de agosto, muito bem instalado em um clube de golfe de sua propriedade, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rosnou sua fúria belicista contra a Venezuela:

    Temos muitas opções a respeito da Venezuela, incluindo uma possível opção militar se for necessário (...) Temos tropas em todo o mundo, em lugares que estão muitos distantes (...) A Venezuela não está distante...”.

    O ex-chanceler do Brasil nos governos Lula declarou à revista Carta Capital, em sua edição de 30 de agosto: “É uma declaração totalmente irresponsável”. E alfinetou: “Os governos da região parecem não ter noção da importância da estratégia das Forças Armadas. Uma fala dessas no governo Lula era caso de convocar a UNASUL”. Amorim disse recear um “novo Vietnã”.

    O fato é que, muito embora os governos da América Latina tenham mostrado preocupação com as palavras de Trump, a UNASUL (União das Nações Sul-americanas, que reúne 12 países) não foi convocada a se reunir até o momento.

    Na escalada de cerco e tentativa de ingerência do governo dos Estados Unidos nos assuntos internos da Venezuela – onde o presidente da CIA reconheceu a intenção de tirar Maduro do governo por meio de um golpe – no dia 25 de agosto o presidente Trump assinou uma ordem executiva impondo novas sanções econômicas ao país, desta vez proibindo futuras operações com bônus venezuelanos e da empresa estatal de petróleo PDVSA no mercado estadunidense.

    Na esteira disso, um juiz de Nova Iorque sentenciou pelo embargo de 1,2 bilhão de dólares de uma conta da Venezuela no Bank of New York Mellon em favor da empresa mineradora canadense Crystallex, estatizada no governo Hugo Chávez.

    Trata-se do velho método imperialista de asfixia econômica de um país para exacerbar suas contradições internas, e nesta circunstância facilitar a ingerência como força salvadora e humanitária.

    É neste cenário que tropas dos Estados Unidos participarão, a convite do governo brasileiro de Temer, de inéditos exercícios militares na Amazônia, em novembro. Segundo o site do evento, chamado AMAZONLOG, a atividade é apresentada assim:

    No período de 6 a 13 de novembro de 2017 a cidade de Tabatinga, localizada no Estado do Amazonas, tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, será palco de um grande Exercício de Logística Multinacional Interagências, o AMAZONLOG. O Exercício será conduzido pelo Comando Logístico do Exército Brasileiro e contará com a presença de militares da Colômbia, Estados Unidos da América e Peru, de observadores militares de Nações Amigas, forças policiais, órgãos e agências governamentais, e empresas brasileiras e estrangeiras. Durante oito dias, as tropas e agências em um cenário tático limitado e baseado nos problemas da região da tríplice fronteira vão testar e desenvolver soluções logísticas coletivas, assim como avaliar a interoperabilidade dos seus equipamentos, sistemas e procedimentos. Tudo isso, através da padronização de processos em campanha. No decorrer do período do AMAZONLOG será realizada uma Operação Conjunta, Multinacional e Interagências), nas seguintes condições: – Planejamento operacional e atividades de inteligência centralizadas no Comando Combinado; e

    – Apoio Logístico, a partir de uma Base Logística Multinacional, Interagências, com atuação em toda a área de operações”.

    Mesmo se o número de militares do Comando Sul dos Estados Unidos – ao qual está subordinada a IV Frota, reativada em 2008 quando o Brasil descobriu o pré-sal – não é divulgado, comenta-se a presença de 800 militares da tropa de elite da Marinha, os Seals. O contingente brasileiro seria composto de 1053 militares.

    Segundo a matéria da revista Carta Capital já mencionada, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de 5 de maio, teria divulgado uma mensagem de insatisfação que estava circulando entre os reservistas nos quartéis do Exército. Esta mensagem alertava:

    Convidar as Forças Armadas dos Estados Unidos para fazer exercícios conjuntos com as nossas Forças Armadas na Amazônia, é como um crime de lesa-pátria. Ensinar ao inimigo como nos combater na Selva Amazônica é alta traição”.

    A mesma Carta Capital dá conta do seguinte comentário do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército brasileiro, num debate no Senado Federal:

    Concordo que vivemos num mundo de absoluta incerteza, e as ações, por exemplo, do Presidente Trump, nos Estados Unidos, estão aumentando essas incertezas, o que reforça a ideia de fortalecermos o nosso poder - nós temos o projeto – e de aumentar a nossa capacidade de dissuasão”.

    Por outro lado, o general de brigada brasileiro, militar da reserva (aposentado) e anistiado político do golpe de 1964, Bolivar Marinho Soares de Meirelles, divulgou uma nota no dia 11 de maio onde critica a decisão do governo Temer pelas manobras militares conjuntas com os Estados Unidos. Diz num trecho da nota:

    Hoje, a maior hipótese de Guerra é o Brasil ter de se confrontar com as Forças Armadas Norte-americanas em ato de defesa contra invasão das nossas fronteiras em busca da reserva aquífera brasileira, do pulmão amazônico, esse grande produtor de oxigênio para a atmosfera mundial, a tentativa dos EUA de rapinar o Petróleo Brasileiro, o Nióbio que o Brasil detém 97 por cento das reservas mundiais, outros tantos minérios, a biodiversidade de nossa fauna e flora, o nosso solo e subsolo. As Forças Armadas Brasileiras servirem de professores, didatas especializados em território nacional, aos invasores potenciais, é um hediondo crime. O Governo de traição nacional do Usurpador Michel Temer processa esse crime de lesa Pátria ao abrir o conhecimento esmiuçado do nosso território nacional ao Império do Norte. O mapeamento de nossas táticas defensivas passa a ser o absurdo dos absurdos”.

    Segundo disse o chefe do Exército brasileiro aos senadores, a estimativa dos militares é que hoje a Amazônia detenha uma riqueza natural avaliada em 23 trilhões de dólares, ou seja, mais de 60 trilhões de reais. Algo destas proporções, equivalente a 30% do PIB mundial, certamente não passa despercebido dos interesses das multinacionais e do mercado financeiro dos Estados Unidos.

    Ao mesmo tempo em que estes exercícios militares vão dar às forças armadas dos Estados Unidos a possibilidade de pela primeira vez ter uma tropa sobre o teatro de operações na Amazônia, no outro lado, a política de ajuste fiscal do governo Temer, aplicada por exigência do capital financeiro e do próprio governo estadunidense, está cortando verbas do exército e comprometendo as ações de segurança nas fronteiras brasileiras.

    Os efeitos das manobras militares de novembro, apelidadas de “operação Tabatinga”, sem sombra de dúvidas são um sério risco para a paz e a soberania dos povos na região, uma vez que os Estados Unidos podem se servir dela para aplicar um plano de inoculação da guerra no território da Venezuela, o que traria um rastilho de consequências para todos os países da América do Sul, a exemplo do que acontece no Oriente Médio. Mas também, a pretexto de pressão sobre o governo Maduro, estes exercícios servem para ampliar os conhecimentos militares de como proceder sobre uma vasta área geográfica tão particular quanto a Amazônia.

    Diante dos imensos riscos e sérios efeitos colaterais da “operação Tabatinga”, começa a ser articulado um movimento pelo seu cancelamento. Segundo o artigo 49 da Constituição Federal é de competência exclusiva do Congresso Nacional “...permitir que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele permaneçam temporariamente”. Neste caso, deputados (as) e senadores (as) não podem desconsiderar que a situação é bastante séria e eles não simplesmente tirar o corpo fora.

    Anísio Garcez Homem
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