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Opinião

  • 28/08/2017
    revista Ágora

    Ocupações e resistência

    "ali na Câmara e acima de tudo com o choro preso na garganta, quando foi decidido pela assembleia pela desocupação, pois o medo de represália da policia era palpável"

    O calor ainda dominava a cidade quando surgiram os primeiros boatos do pacote de ações do prefeito eleito. Confesso: ninguém conseguia acreditar que esse senhor se valeria de atos inconstitucionais nacionais para pagar suas dividas de campanha. Porém, no dia do aniversário da cidade, apresenta-se o projeto na “Casa do Povo”, ainda pior que o esperado por aqueles que estavam acompanhando o processo.

    Conversávamos dentro das unidades, mas eram tão absurdas as propostas que poucas pessoas acreditavam. Alice ficaria invejosa, pois superavam, e muito, seu país fantástico. Não só ele adiava adata-base dos servidores, comoaumentava o desconto do IPMC, reduzia o 13º, colocava em xeque o valor do vale transporte.

    Assim demos início às assembleias e mobilizações para a greve geral dos servidores e esses começaram a compreender o quanto estavam perdendo a cada dia de trabalho, e o quanto ainda perderiam, e foi nesse espírito que iniciamos nossa greve no dia 12 de junho – um ato de amor à nossa cidade – depois de ser votado o regime de urgência para esses projetos.

    Sem que os vereadores, que já haviam ganhado visitas com inúmeras promessas do senhor “Prefeito”, quisessem conversar conosco, ocupamos o plenário da Câmara, no dia 13 de junho, com um sentimento de revolta, de angústia, uma vontade de mudar o mundo e a esperança que poderíamos fazer a diferença naquele momento, ali na Câmara e acima de tudo com o choro preso na garganta, quando foi decidido pela assembleia pela desocupação, pois o medo de represália da policia era palpável.

    A conversa prometida não surtiu efeito nenhum e, no dia 20 de junho, estávamos novamente em frente à Câmara, com mais vontade de lutar por nossos direitos, com mais pessoas se unindo a nós. Fomos recebidos com um verdadeiro aparelho de guerra da Polícia Militar. Mesmo com toda a chuva da noite, permanecemos no acampamento e na ocupação. Quando algumas pessoas entraram nas galerias da Câmara, não imaginávamos o horror que veríamos lá de cima, revoltados pelo descaso dos vereadores, os servidores arrancaram com uma bravura descomunal as grades que os separavam da polícia e alguns conseguiram ocupar o Plenário pela segunda vez, mas não sem agressão dos policiais, que bateram nos servidores desarmados. Dentro da galeria gritávamos para a sessão ser suspensa e, quando enfim perdemos a voz, o presidente a suspendeu.

    Mesmo em situações deploráveis permanecemos resistindo, sem banheiro e com pouca comida, mas com a força vinda do lado de fora. Novamente foi com lágrimas incessantes que desocupamos, pois a decisão de quem estava ocupando era permanecer, mas dependíamos da assembleia que fora realizada fora da Câmara, assim conseguimos novamente adiar o processo.

    Ópera de Arame: espetáculo da covardia

    Infelizmente, na semana seguinte, dia 26 de junho, os vereadores covardemente mudaram o local de votação para a Ópera de Arame e, se na semana anterior tinha efetivo policial, nesse dia eles estavam preparados para a guerra, inclusive com efetivo vindo do interior do estado e com o antibomba – que deveria ter sido usado neles, pois foram os únicos que portaram e jogaram bomba nos servidores.

    Em uma ultima estratégia de mobilização contrária, um grupo ocupou a prefeitura de Curitiba, e ali mostramos novamente nossa força e resistência perante o prefeito que se recusou a aparecer e conversar com quem realmente faz a cidade. Fomos ameaçados de várias formas, desde fisicamente até a prisão, mas permanecemos bravamente, até sermos forçados a sair por uma reintegração de posse, às 23 horas.

    Com o sentimento de que o projeto foi aprovado, mas a certeza de que a luta e a resistência a esse governo permanecerá todos os dias, pois somos maiores que ele e nossa força se faz da luta diária, ainda ouço a emblemática frase ao ocuparmos: “A Câmara de Vereadores de Curitiba volta a ser a casa do Povo. Tomada pelo Povo” e sinto um imenso orgulho das pessoas que ocuparam e fizeram parte dessa luta conosco.

    Marina Alzão Felisberto
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