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Opinião

  • 22/08/2017
    Instituto Humanitas Unisinos

    Papa Francisco. Meritocracia - a legitimação ética da desigualdade

    Assim desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária;

    Há muito tempo leio sobre a ressignificação de palavras, especialmente, muitas delas que sempre me foram muito gratas. Me recordo de um texto de Hugo Assmann, que trabalhei ao longo do ano de 1998, que falava da cooptação das linguagens progressistas. Já em 2002, por ocasião da realização do Fórum Social Mundial, vi um texto de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant com o título “A nova bíblia de tio Sam” em que os autores falam de uma nova e estranha língua, chamada por eles de uma "nova vulgata", ou usando a expressão “novilíngua”, tomada de (George) Orwell.

    Posteriormente trabalhei - já a especificidade da palavra meritocracia - num texto para o blog, em que eu examino os espaços públicos e a abertura de oportunidades como condição para a meritocracia efetivamente acontecer e terminava com uma metáfora da minha horta e as plantinhas, das quais as mais bonitas eu plantava na parte central e melhor adubada do canteiro, as mais fraquinhas nas beiradas e as mais mirradinhas mesmo, em ato de crueldade, eu simplesmente descartava, as jogava fora. Não valia a pena cuidar delas. Jamais elas seriam absorvidas pelo mercado.

    Recentemente vi em Boaventura Sousa Santos, no epílogo de seu maravilhoso livro, “A difícil democracia - reinventar as esquerdas”, o seguinte: "Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia".

    Agora estou diante das declarações do papa Francisco, em exortação aos trabalhadores da empresa Ilva, em Gênova, no dia 29 de maio de 2017. Nele, o papa diz textualmente que com o discurso da meritocracia "legitima-se eticamente a desigualdade". O seu discurso, dirigido aos trabalhadores, foi enfático e a parte que mais chamou atenção foi exatamente a referência feita à meritocracia, palavra cuja ressignificação já vem sendo trabalhada há mais de vinte anos. Vejamos um trecho do discurso:

    "Outro valor que, na realidade, é um desvalor é a tão elogiada "meritocracia". A meritocracia fascina muito porque usa uma palavra bonita: o "mérito", mas, como a instrumentaliza e a usa de modo ideológico, ela a desnaturaliza e a perverte. A "meritocracia", para além da boa fé dos tantos que a invocam, está se tornando uma legitimação ética da desigualdade". Francisco continua em seu discurso dirigido aos trabalhadores:

    "Uma segunda consequência é a mudança da cultura da pobreza. O pobre é considerado um desmerecido e, portanto, culpado. E, se a pobreza é culpa do pobre, os ricos são exonerados de fazer algo. Mas essa não é a lógica do Evangelho, não é a lógica da vida: encontramos a meritocracia no Evangelho, em vez disso, na figura do irmão mais velho na parábola do filho pródigo. Ele despreza o irmão mais novo e pensa que este deve continuar sendo um fracassado, porque mereceu isso. Ao contrário, o pai pensa que nenhum filho merece as bolotas dos porcos".

    Grande papa Francisco. Ele realmente representa a igreja de Cristo e não a “Igreja poder” que se afirmou a partir de Constantino. Leonardo Boff faz belas reflexões nesse sentido, ao mesmo tempo em que teme o que possa vir contra Francisco por parte da Igreja como instituição de afirmação de poder. Boff também destaca a simbologia do uso do nome Francisco.

    (Os dados do discurso tem como fonte o Instituto Humanitas da Unisinos).

    Pedro Elói
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Pedro Elói #@titulo@#

Formação em Filosofia, Especialização em Desenvolvimento Econômico e Social Brasileiro, Mestrado em História e Filosofia da Educação PUC-SP, Professor de História da rede pública do Estado do Paraná.

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