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Opinião

  • 06/06/2017

    Democracia - capitalismo, colonialismo e patriarcado

    As esperanças passam por um mundo de enormes desafios

    A difícil democracia - reinventar as esquerdas é um livro fundamental para quem quiser efetivamente discutir a difícil democracia nos dias de hoje. Dias de absoluto domínio da ideologia neoliberal e da mudança de conceitos de territorialidade - desterritorialidade, de países ou de nações, para se chegar ao chamado mercado mundial globalizado. Se o Estado, até certo ponto, era um antídoto aos males do liberalismo econômico, o liberalismo político, pela ação do Estado, procurava mitigar, ao menos um pouco, os seus efeitos sociais perversos. O neoliberalismo é a mais anti social de todas a ideologias.

    Neste livro Boaventura Sousa Santos trabalha com os conceitos de democracia de baixa e alta intensidade. A democracia de baixa intensidade é a democracia liberal, representativa, formal e cujo principal componente é o fenômeno das eleições. Marx designava o poder decorrente desta democracia liberal como a trincheira da defesa dos interesses burgueses. É uma democracia estática, que odeia e abomina a participação e qualquer movimento ascensional nas bases da sociedade.

    Sob esta democracia representativa o atual poder mundial institui o que o autor chama de "fascismo social", isto é, um sistema que aboliu todos os direitos ligados ao trabalho e à seguridade social, assim como o estamos vendo no Brasil após o golpe de 2016. Este fenômeno ocorre, mesmo sob a aparência da normalidade democrática, de baixa intensidade. Este poder mundial está associado ao capital financeiro, que para continuar com a finalidade primeira do capitalismo, isto é, a acumulação, precisa destruir direitos para continuar atingindo os seus perversos intentos. É um tempo em que se soma a ideologia política com os interesses econômicos das minorias. É um tempo em que pretendem transformar a dominação em hegemonia, para que os pobres se sintam como os culpados pela sua própria pobreza.

    Estes são os difíceis tempos para a democracia, a qual se refere o título, ao mesmo tempo que procura alternativas democráticas para às esquerdas, como sugere a segunda parte do título. Diante desta difícil democracia o sociólogo português propõe a radicalização da democracia, a democratização da própria democracia e transformá-la numa democracia representativa, de alta intensidade. Muitos outros espaços, para além da política, precisam ser atingidos.

    Esta alta intensidade implicaria em transformar radicalmente as esferas de seis diferentes espaços e tempos sob os quais está estruturada a nossa sociedade e nos quais ocorrem as relações de poder desiguais. Para ser totalmente fiel ao texto, recorro à transcrição. "No espaço-tempo doméstico, a forma de poder é o patriarcado ou relações sociais de sexo; no espaço-tempo da produção, a forma de poder é a exploração centrada na relação capital/trabalho; no espaço-tempo comunidade, a forma de poder é a diferenciação desigual, ou seja, os processos pelas quais as comunidades definem quem pertence e quem não pertence e se arrogam o direito de tratar desigualmente quem não pertence; no espaço-tempo do mercado, a forma de poder é o fetiche das mercadorias, ou seja, o modo como os objetos assumem vida própria e controlam a subjetividade dos sujeitos (alienação); no espaço-tempo da cidadania, a forma de poder é a dominação, ou seja, a desigualdade no acesso à decisão política e no controle dos decisores políticos; e, finalmente, no espaço-tempo mundial, a forma de poder é troca desigual, ou seja, a desigualdade nos termos de troca internacionais, tanto econômicas como políticas e militares". (Página136-7. É possível vislumbrar este quadro das relações?

    Boaventura volta ao tema no epílogo do livro, epílogo que propõe, seja lido apenas em 2050. Refletindo então, sobre o passado, encontramos o seguinte: "Operavam três poderes em simultâneo, nenhum deles democrático: capitalismo, colonialismo e patriarcado; servidos por vários subpoderes, religiosos, midiáticos, geracionais, étnico-culturais, regionais. Curiosamente, não sendo nenhum democrático, eram o sustentáculo da democracia realmente existente".

    Refleti um pouco sobre estas três palavras-conceito, capitalismo, colonialismo e patriarcado. Expus as três palavras a uma pessoa praticamente analfabeta, destas coisas que ainda acontecem no Brasil. Por coincidência, também era negra. Lhe perguntei se as relações, com as quais ele se entrelaça na sociedade, eram autoritárias ou democráticas e se elas, em consequência, geravam justiça e igualdade, ou injustiça e desigualdade. Explicitei mais, perguntando: como se dão as suas relações de trabalho (capitalismo); como se dão as suas relações étnico-raciais, (colonialismo) e como se dão as suas relações domésticas e familiares (patriarcado)? A resposta foi batata. Pratica o autoritarismo quando pode, mas na maioria das vezes é a sua vítima. Aliás, nem precisava recorrer a este exemplo. Basta olhar para nós mesmos. Vivemos numa sociedade extremamente autoritária, desigual e injusta. Coisas da cultura.

    Realmente a missão das esquerdas é difícil. A difícil democracia e a reinvenção das esquerdas. É preciso um enorme esforço teórico para ler corretamente o mundo e um esforço prático, que envolve enorme soma de esforços para que a indiferença e o medo não suplantem as esperanças.As esperanças passam por um mundo de enormes desafios. 


    Pedro Elói
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Pedro Elói #@titulo@#

Formação em Filosofia, Especialização em Desenvolvimento Econômico e Social Brasileiro, Mestrado em História e Filosofia da Educação PUC-SP, Professor de História da rede pública do Estado do Paraná.

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