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Opinião

  • 19/04/2017
    revista Ágora

    Fortalecer o Feminismo Popular

    Enraizar o feminismo e retomar o trabalho de base são os desafios

    Quando falamos em Feminismo o uso do S no fim da palavra, anunciando a pluralidade, deveria ser implícito. FeminismoS no plural. Assim como “as esquerdas” e “as direitas” têm uma multiplicidade de posicionamentos, pautas e sujeitos, o mesmo ocorre no feminismo. Há o feminismo liberal, o feminismo radical, o feminismo “queer”, o feminismo marxista, o feminismo interseccional, e o que temos chamado de “feminismo popular”, dentre várias outras correntes. Adentrar em pormenores de cada uma delas não é nosso objetivo. Mas entender como aproveitar o melhor entre três destas três últimas vertentes pode implicar em verdadeiro acúmulo para a organização de mulheres frente à sociedade patriarcal que vivemos.

    O Feminismo marxista contribuiu em muito para pensarmos a articulação entre o Patriarcado e o Capitalismo. O Patriarcado é entendido aqui como estrutura social e cultural que pré-define papéis, espaços e trabalhos masculinos e femininos, hierarquizando-os em relações de poder desigual e dominação. Contudo, o Patriarcado não afeta todas as mulheres da mesma forma. Num sistema em que o capitalismo avança explorando a classe que sobrevive de seu trabalho, são as mulheres trabalhadoras as mais oprimidas.

    Por isso a inviabilidade de pautarmos um “feminismo liberal”, isto é, somente dentro das lógicas do mercado que atende as mulheres brancas e ricas. Não adianta defender que as mulheres ocupem espaços de poder se ao mesmo tempo defende-se a flexibilização do trabalho, liberalização da economia ou a reforma da previdência que está posta, que afeta as mulheres trabalhadoras de forma cruel com o Estado mínimo.

    Se pensamos num feminismo de fato libertador devemos pensar em um projeto coletivo que relacione ou interseccione as disparidades de gênero, raça e classe ou do Capitalismo, Racismo e Patriarcado, estruturais na sociedade brasileira. Este nó é perceptível facilmente quando vemos as faces das trabalhadoras domésticas, das trabalhadoras da limpeza, das catadoras de materiais recicláveis, daquelas que ocupam os postos de trabalho mais precários no Brasil e gerenciam famílias - muitas vezes sozinhas - na labuta pesada cotidiana. De nada adianta dizer que “hoje as mulheres ocupam o mercado de trabalho formal”, se o trabalho doméstico – historicamente relegado e imposto às mulheres – é ocupado por uma mulher negra e pobre para que a mulher branca e rica possa estar no espaço público.

    Os Feminismos, neste sentido, devem-se popularizar, sair dos debates acadêmicos e, como já têm feito, ocupar as ruas; sair da visão estrita do gênero para refletir de fato a classe e raça/etnia que têm atingido. É preciso pensar um feminismo popular, um feminismo dialógico, real, nas bases da troca de saberes e não da imposição bancária (aquela na qual apenas se “deposita” conteúdo), como diria Paulo Freire. É preciso pensar numa educação popular feminista que traga a partir da realidade das mulheres brasileiras suas pautas e lutas, não um convencimento de “cima para baixo”.

    Enraizar o feminismo e retomar o trabalho de base são os desafios colocados após um longo período de institucionalização e engessamento do debate. E para isso é necessário organização, objetivo e coletividade. Mais uma vez Paulo Freire: “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho[a], os homens [e mulheres] se libertam em comunhão”.

    Para ler mais

    KERGOAT, Danièle. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais.
    SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência.
    SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.
    SOUZA-LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos.
    HIRATA, Helena. Gênero, classe e raça Interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais.

    Naiara Bittencourt
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Naiara Bittencourt #@titulo@#

Advogada e militante da Marcha Mundial de Mulheres

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