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  • 11/08/2017 Geral
    revista Ágora

    Flores do Campo luta para permanecer

    Flores do Campo luta para permanecer
    Pedro Carrano. Casas pronta e ruas ainda abertas
    400 famílias em Londrina ocuparam empreendimento abandonado e apostam na vida e contra o despejo forçado, em meio à repressão e ao descaso

    A terra vermelha da região norte do Paraná está impregnada em cada tênis dos moradores, no ar e no descampado onde fica instalada a ocupação chamada de Flores do Campo.

    De longe, a imagem é um retrato da situação da terra urbana no Brasil. Localizada fora de Londrina, segunda maior cidade do estado, a área que hoje recebe cerca de 400 famílias é um empreendimento do programa Minha Casa Minha Vida, ocupado desde outubro de 2016, quando somava dois anos de atraso e cinco meses de máquinas paradas e braços cruzados.

    Com financiamento principal da Caixa Econômica Federal e também da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar),a construtora responsável pelo empreendimento, Fórmula Empreendimentos Imobiliários LTDA, descumpriu o contrato.

    As três mil pessoas ocupantes eram as mesmas que encorpavam a fila da Cohab local, algumas delas há anos, às vezes até décadas. A mesma história conhecida: os imóveis de alvenaria, praticamente acabados, em um período de crise de emprego, não poderiam ficar abandonados daquele jeito. Bandidos? Apenas no discurso de alguns comunicadores locais.

    “Os criminosos são eles”, reage Guida (nome fictício para evitar retaliações), que vive ali com o marido. A ocupação recebeu trabalhadores da área de serviços, motoboys, desempregados e moradores de rua, afirmam as lideranças locais.

    Há uma série de unidades ali que estão na carcaça, não chegaram nem perto de conclusão – uma vez que o empreendimento inicial seria para 1.218 unidades habitacionais, de 39 a 41 metros quadrados.

    “Sempre precisamos de um abrigo, ninguém tem projeto de vida de ficar em casa inacabada”, reflete Eliane de Moura Martins, liderança do Movimento de Trabalhdoras e trabalhadores por Direitos (MTD), quem veio de Porto Alegre contribuir com a organização das famílias.

    Organização do povo

    E os moradores não perderam tempo. Organizaram-se no formato de coordenação para garantir estrutura e auxílio às famílias. Estão preparando uma associação de moradores. As casas com famílias apresentam chuveiro, luz e uma série de hortas – de abacaxi a alface -, e outros inventos típicos da (sempre) criatividade popular. Há até mesmo um poste, numa das praças da Flores do Campo, que conta com o uso de garrafas pet para disseminar a luz.

    Kely (nome fictício), que vive ali com filha e marido, e estava há seis anos na fila da Cohab, é uma das lideranças que se forjou assim, no improviso, em meio à luta. “No começo foi complicado, mas foi o cargo que nos colocaram”, assume.

    Despejo e situação tensa

    Informações do Brasil de Fato Paraná apontam que o mandato de reintegração de posse partiu da juíza Georgia Zimmermann Sperb, da 1ª Vara Federal de Londrina, em 3 de outubro, dois dias após a ocupação.

    A execução do despejo foi designada à Polícia Federal, mas, um dia depois de notificada, a corporação informou à juíza que não realizaria a ação por conta do "diminuto efetivo" da delegacia da PF em Londrina e pela falta de treinamento e equipamentos adequados.

    A ameaça de despejo voltou a assombrar a Flores do Campo desde o dia 19 de abril de 2017, quando a juíza da 1ª Vara deu prazo de 20 dias para o cumprimento do mandato expedido em outubro. Na decisão, a magistrada autorizou que as polícias Militar e Federal, ao lado da Guarda Municipal, participem da ação. A situação tensa reflete um impasse que faz da Flores do Campo uma situação diferente de outras ocupações recentes no Brasil (veja no histórico).

    “É uma ocupação singular, ao contrário do que é alegado na mídia, é justa a indignação de ver o empreendimento abandonado”, afirma Autieres Oliveira, advogado que defende os moradores.

    Oliveira recorda que não há nas conversas até aqui com a Caixa Econômica Federal nenhuma sinalização de que as obras continuariam se as famílias forem despejadas à força. Conversas recentes até o momento com o prefeito Marcelo Belinati (PP), intermediadas pela igreja, não tiveram resultado até o fechamento desta edição.

    Quanto?

    48%
    percentual da obra que estava concluída, de acordo com a Caixa Econômica.

    21
    meses de atraso a obra já somava

    O poder público, esse agressor?

    O que parece poético – a terra vermelha característica da região -, na realidade esconde distâncias e preconceito, sentidos quando os filhos dos ocupantes são apelidados de “toddy”, na escola, devido ao tênis sujo em dias de chuva, culpa da falta de antipó na área.

    Mas o maior preconceito mesmo vem do poder público. Não bastasse a ação de despejo forçado, vereadores locais aprovaram uma emenda à lei orgânica, cuja tramitação, aprovada recentemente, criminaliza também outra ocupação local em Londrina, desta vez dos artistas organizados no Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL).

    “Nossa forma de ver é que nos oprimem para as pessoas abandonarem a Flores do Campo. Queremos pagar luz, pagar água. A polícia oprime os moradores, no outro dia mandam tiro de borracha. Houve agressão à moradora”, denuncia Keity.

    Um pouco de cotidiano

    O caminhão de coleta de lixo passa de 15 a 20 dias. Outro problema grave é a estrutura mal feita, sobretudo a de saneamento, que não foi construída antes do empreendimento iniciar. Com isso, as casas, praticamente finalizadas, não contam com saída de esgoto, o que tem sido improvisado pelos moradores. A saída é a chamada fossa sanitária.

    Líder religiosa, uma das lideranças locais, já passou a experiência de despejo em ocupação anterior, quando recorda que teve famigerados “cinco minutos” para falar, na Câmara Municipal de Londrina, sob vaias dos vereadores. “Colocar as coisas no caminhão, isso tudo é doído”, confessa. Ex-presidiária, ela também reclama da indiferença do atual prefeito e dos vereadores.

    Pedro Carrano, com Brasil de Fato Paraná
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