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  • 15/12/2017 Geral
    revista Ágora

    Expostos em pleno zoológico

    Expostos em pleno zoológico
    Pedro Carrano
    Conheça o perfil dos polivalentes da prefeitura que trabalham há décadas no zoológico que o público ainda não conhece

    Hamilton é um trabalhador polivalente do serviço público municipal. Ele entra na sede do sindicato e logo exibe a mão direita com três dedos perdidos e o braço com uma cicatriz profunda. Há mais de dez anos, servia comida ao chimpanzé do zoológico municipal de Curitiba quando sofreu um ataque.

    Cães do mato, lobo guará e outros animais, quando precisam ser vacinados ou tratados, devem ser imobilizados pelos polivalentes. Animais maiores como os felinos recebem tranquilizantes. Animais médios, não. “Tem que segurar o pescoço, isso é feito escondido para o público não ver”, afirma Elias, também polivalente.

    Dias depois, Hamilton e Elias conduzem a reportagem, em visita ao parque público, pelo setor de confinamento, que não é visível a quem visita o passeio. 

    Eles mostram que, mesmo na estrutura precária e de madeirite das jaulas, precisam estar em contato com animais que revelam os dentes, caso da queixada (tipo de porco do mato selvagem).

    Na parte da manhã, ou no meio da tarde, geralmente às segundas-feiras, os tratadores precisam se confrontar com os bichos, usando um método que assustaria até mesmo um herói hollywoodiano da sessão da tarde. Ao lado do risco, impera a desmotivação de uma categoria que nunca teve um plano de carreira, por exemplo, que bateu na trave na gestão Fruet.

    Dentro do recinto dos felinos, o mais admirado do parque, entre jaulas de onças e pumas, Hamilton revela, para temor de quem presencia, como a estrutura das jaulas é envelhecida. Um cadeado separa o rugido da onça da reportagem. “A população não sabe, acha que tudo fica lindo”, diz.

    Ataques de harpia e desvalorização

    Os servidores polivalentes, alocados para a função de tratadores, guardam cicatrizes de encontros duros e inimagináveis com a garra da harpia, a mordida da queixada ou mesmo o ataque de um, aparentemente, inofensivo papagaio.

    Tudo isso sem qualquer compensação financeira, a partir de desigualdade entre os funcionários do zoológico e confusão de cargos e funções. “Nós é que não somos tratados”, desabafa o tratador.

    Os tratadores fazem um serviço pesado e com risco sério à saúde. Sua demanda é pela atual gratificação de risco somada a uma gratificação prevista em lei. Porém, atualmente, cada funcionário pode optar apenas por um dos dois benefícios.

    Esta situação já foi resolvida no caso dos servidores públicos dos cemitérios, pelo fato de que estão em contato com exumação de cadáveres. Porém, os polivalentes do zoológico mostram que estão em contato com fezes, restos de animais, expostos também às doenças que os bichos possam contrair. “Queria aumento de 30% para 40% igual ao veterinário”, exclama Elias.

    Elias, Hamilton, Reinaldo, neste caso um é todos os outros. O servidor atua em cada um dos nove setores de tratamento do zoológico. Como o quadro de funcionários está envelhecido, são 30 ao todo, se alguém se ausenta por motivo de doenças, é preciso repor a vaga no improviso. No fundo, todos tiveram que aprender a ser tratadores.

    Um funcionário, que preferiu não se identificar, explica que os principais gastos hoje com estrutura se referem à alimentação, folha de pagamento, manutenção do parque e medicação animal. “Não temos efetivo suficiente”, admite. Os funcionários reforçam a necessidade de o caráter do parque manter-se público e gratuito. Porém, pedem que haja valorização para os funcionários.

    Exposição a doenças

    Outro detalhe pouco conhecido é a exposição à contaminação por leptospirose. Ratos são comuns em meio à água parada e comida dos animais. Os polivalentes acabam desenvolvendo as próprias gambiarras para que a água escoe sem que precisem mexer nela.

    Os tratadores estão em contato direto com esse tipo de comida e fezes. Os equipamentos de proteção individual (EPI) são precários, o que piora ainda mais à exposição a doenças. “Ficamos uns dois anos com a mesma botina”, protesta Elias.


    Pedro Carrano
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